Achado inédito foi feito na Reserva Ducke, perto de Manaus, durante expedição com cientistas do Brasil e da Dinamarca. O Cordyceps caloceroides parasita artrópodes e chama atenção pelo alto grau de especialização e pela raridade de registros em aranhas
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| © Reprodução- Instagram |
O fungo pertence ao mesmo gênero que ficou popularmente conhecido como o “fungo de The Last of Us”, em referência à série da HBO inspirada em um cenário fictício de apocalipse. Fora da ficção, no entanto, o Cordyceps não infecta humanos. Na natureza, ele ataca insetos e outros artrópodes, interferindo no sistema nervoso dos hospedeiros e manipulando seu comportamento para garantir a própria reprodução.
O exemplar foi encontrado durante atividades de campo do Tropical Mycology Field Course, curso internacional organizado pelo biólogo João Paulo Machado de Araújo, professor da Universidade de Copenhague. A descoberta foi feita por Lara Fritzsche, estudante de Ciências Ambientais da instituição dinamarquesa, durante a coleta de amostras na floresta amazônica. A expedição reuniu especialistas do Brasil e da Dinamarca, com apoio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
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| [Legenda]© Drechsler-Santos - Instagram |
O caso ganhou repercussão após ser divulgado pelo micologista Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, professor do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas da UFSC e coordenador do grupo de pesquisa MIND.Funga. Segundo o pesquisador, embora fungos do gênero Cordyceps possam ser encontrados em outros biomas brasileiros, como a Mata Atlântica, a ocorrência em uma tarântula amazônica tem grande relevância científica.
“Estamos lidando com condições ambientais completamente diferentes, com espécies específicas de aranhas e fungos que apresentam níveis muito altos de especialização”, explicou Drechsler-Santos em entrevista ao portal A Crítica. Ele ressalta que, em muitos casos, a relação entre fungo e hospedeiro é extremamente restrita. “Há situações em que uma espécie de fungo parasita apenas uma única espécie de inseto. Essas interações podem ter se estabelecido há cerca de 50 milhões de anos. Em aracnídeos, registros como esse são raros e difíceis de encontrar.”
Apesar de se saber que o Cordyceps se espalha por meio de esporos, os mecanismos exatos de infecção em aranhas ainda são pouco compreendidos. “Muito provavelmente os esporos entram em contato com o corpo da aranha ou com o solo por onde ela circula e acabam se instalando. A partir daí, surgem muitas perguntas que a ciência ainda precisa responder”, afirmou o professor.
Para o pesquisador, a popularidade da série The Last of Us teve um efeito positivo ao despertar o interesse do público por fungos. “A série ajudou a chamar atenção para um grupo de organismos que sempre foi fundamental para a humanidade, mas que por muito tempo foi negligenciado pela ciência e pelos investimentos em pesquisa”, avaliou.
“Encontrar e documentar uma espécie rara como essa é extremamente emocionante. É a partir desses registros que o conhecimento científico avança”, concluiu Drechsler-Santos.
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