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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Derretimento da Groenlândia fará nação do outro lado do mundo sumir, diz enviado da ONU

A maior ilha do mundo é um caldeirão climático. Por um lado, o derretimento do Ártico, provocado pelo aquecimento global, deixa o território e seus vizinhos mais vulneráveis a potenciais ataques. Por outro, a Groenlândia é rica em minerais críticos para a transição energética, e o desaparecimento da sua camada de gelo facilita o acesso a esses recursos.

Imagem de Rolf Johansson por Pixabay
JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio às ameaças de invasão de Donald Trump e do anúncio de um futuro acordo entre americanos e dinamarqueses, a Groenlândia está no centro das discussões na edição deste ano do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

A maior ilha do mundo é um caldeirão climático. Por um lado, o derretimento do Ártico, provocado pelo aquecimento global, deixa o território e seus vizinhos mais vulneráveis a potenciais ataques. Por outro, a Groenlândia é rica em minerais críticos para a transição energética, e o desaparecimento da sua camada de gelo facilita o acesso a esses recursos.

Os imensos volumes de água de degelo vindos da região já respondem por um quinto do aumento do nível do mar ao redor do planeta.

Para Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas para os oceanos, é importante lembrar que isso tem relação direta com as nações insulares do Pacífico. "O derretimento da Groenlândia significa, na prática, o desaparecimento de uma nação do outro lado do mundo", afirma à Folha de S.Paulo.

Ele ressalta que as escolhas que líderes globais fazem hoje definirão o futuro de ecossistemas frágeis e da estabilidade econômica regional no Ártico.

"Quando alguns países e empresas veem um Ártico livre de gelo, pensam imediatamente na exploração de petróleo, rotas de navegação transpolares e mineração em águas profundas. Minha proposta é simples: uma pausa preventiva nessas atividades", explica em entrevista à Folha de S.Paulo por videochamada, diretamente dos Alpes Suíços.

O diplomata de Fiji foi um dos responsáveis pelo fórum ter adotado neste ano a temática "Davos Azul", dando espaço a discussões relacionadas à água -centrais para o debate da mudança climática.

PERGUNTA - Como a mudança climática está moldando o panorama de segurança mundial?

PT - Um bilhão de pessoas estão enfrentando a crise climática de maneira existencial, por causa da elevação do nível do mar, das secas e das tempestades tropicais severas. Isso não é algo que possa ser ignorado.

No entanto, em um certo país está meio "cancelado" falar sobre a mudança climática, o que torna o cenário ainda mais difícil. Mas o mais importante é que o sistema das Nações Unidas e a grande maioria dos países, que são 193 nações, estão plenamente conscientes de que a crise climática é real e de que a transição verde está em andamento e, na nossa visão, é irreversível.

Isso porque essa transição não se baseia apenas na lógica científica, mas também econômica. Hoje é mais barato instalar energia solar ou eólica do que recorrer às antigas tecnologias de combustíveis fósseis. Existe um ditado: os cães ladram, mas a caravana passa. É mais ou menos onde estamos agora.

A geopolítica é um jogo de curto prazo. Eu sou velho o suficiente para lembrar de conflitos como a Guerra do Vietnã, que dominaram as manchetes por anos e hoje parecem episódios distantes da história.
Já as questões ambientais fazem parte de um jogo muito mais longo.

P. - Qual é a relação entre a mudança climática e o interesse do presidente Donald Trump em anexar a Groenlândia? Como o derretimento do Ártico influencia essa decisão?

PT - Não me considero qualificado para falar profundamente sobre a geopolítica da Groenlândia. Mas, em um discurso recente, o primeiro-ministro [canadense] Mark Carney fez uma declaração muito clara sobre a soberania da Groenlândia e sobre como o respeito à soberania territorial vai muito além desse caso específico, afetando a todos nós. E nós temos que defender nossos princípios.
Do ponto de vista ambiental, penso imediatamente no derretimento da camada de gelo da Groenlândia. Isso tem relevância direta para países [do Pacífico] como Tuvalu, que é formado por atóis de coral e não possui áreas elevadas. O derretimento da Groenlândia significa, na prática, o desaparecimento de uma nação do outro lado do mundo, já que toda essa água escoa para um único sistema oceânico.

P. - E como o derretimento da criosfera (o gelo do planeta) pode moldar futuras disputas geopolíticas?

PT - No caso do Ártico, essa é uma questão extremamente relevante. A ciência indica que o gelo da região está diminuindo e que podemos prever um futuro em que, durante o verão, o oceano Ártico ficará livre de gelo. Isso é devastador para a vida selvagem e para os povos indígenas da região.
É isso que me leva a defender uma pausa preventiva em qualquer atividade econômica no oceano Ártico central. Isso pode soar como uma ideia ousada num momento geopolítico meio tóxico como esse. Porém, em tempos difíceis, pode ser útil manter áreas neutras. A Suíça, onde estou agora, é um exemplo histórico disso.
No caso do Ártico, falo de neutralidade em relação à exploração econômica. Quando alguns países e empresas veem um Ártico livre de gelo, pensam imediatamente na exploração de petróleo, rotas de navegação transpolares e mineração em águas profundas. Minha proposta é simples: uma pausa preventiva nessas atividades.
Trata-se de um oceano que permaneceu em silêncio por eras. As baleias, os narvais, as focas e toda a vida marinha do oceano Ártico central evoluíram em silêncio e têm uma comunicação diferente de, por exemplo, uma baleia que passa perto de Nova York ou Tóquio, por causa de todo o ruído subaquático.
Além disso, esse pedido não é algo inédito. As nações do Círculo Ártico já concordaram com uma pausa preventiva na pesca, que tem sido respeitada por todos os países envolvidos.

P.- No momento estamos vendo a situação na Venezuela, mas esta não é a primeira vez que temos uma crise geopolítica em torno de combustíveis fósseis. A transição energética pode contribuir para um mundo com menos conflitos?

- PT Acredito que a transição verde levará a um mundo mais equitativo. O sol está disponível para praticamente todos, e onde ele não é abundante o vento é uma alternativa viável. A energia eólica offshore está prestes a passar por um novo ciclo de crescimento, especialmente com os avanços apresentados aqui em Davos por representantes da Europa e da China.
A energia solar, em particular, teve seus custos reduzidos drasticamente graças aos chineses. A transição verde tem o potencial de criar um mundo mais equitativo e eletrificado.

P. - Qual é a importância do Fórum Econômico Mundial adotar o tema "Davos Azul" neste ano? Quanta atenção o oceano recebe na arena econômica?

PT - Este é o meu décimo ano em Davos, e venho porque aqui o setor público e o setor privado conseguem dialogar diretamente.

Eu copresido a iniciativa Amigos da Ação pelo Oceano, criada aqui em Davos, que teve papel fundamental no lançamento do Plano de Ação Oceânica 30x30 [de proteger 30% dos oceanos até 2030] no ano passado. Agora, estamos na fase de implementação dessa iniciativa, que envolve desde áreas marinhas protegidas na Antártida até corredores de conservação na Melanésia e a implementação do Tratado do Alto-mar.

Essa meta é alcançável, mas exige grande esforço e maior engajamento do setor privado. Esse é um dos motivos para termos o Davos Azul, mas essa temática também inclui a água doce, o ciclo hidrológico, a poluição dos rios e os impactos do aquecimento global, como enchentes em regiões antes não afetadas.

Além disso, a ciência oceânica vive hoje o maior nível de investimento da história, impulsionada tanto pela Década do Oceano da ONU quanto pelo setor privado. Em abril do próximo ano, o Rio de Janeiro sediará a Conferência da Década do Oceano, que deverá ser um evento de enorme relevância global.
Também foi anunciada aqui em Davos a primeira Cúpula Global de Recifes de Coral, a ser realizada neste ano na Arábia Saudita, dada a urgência da proteção desses ecossistemas.

RAIO-X | Peter Thomson, 77
Desde 2017, é o enviado especial do secretário-geral da ONU para os oceanos. Foi presidente da Assembleia Geral da ONU em 2016 e 2017 e representante permanente nas Nações Unidas durante seis anos, período em que também foi presidente do conselho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. É o copresidente e fundador da iniciativa Amigos da Ação pelo Oceano do Fórum Econômico Mundial. Em reconhecimento ao trabalho em questões oceânicas, a Universidade de Edimburgo e a Universidade de Bergen lhe concederam doutorados honorários.

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