Moradores de Cidade Tiradentes e advogada que viu imagens dão o mesmo relato, relatando chute antes de tiro; Secretaria de Segurança Pública diz que caso é investigado 'com prioridade' e que 'lamenta profundamente a morte'
| © Rovena Rosa/Agência Brasil |
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depoimentos de testemunhas e de uma advogada que assistiu a gravação da ocorrência que resultou na morte da ajudante-geral Thawanna da Silva Salmázio, 31, contradizem a versão contada por policiais militares.
Essas pessoas afirmam que Thawanna foi agredida antes de ser baleada na madrugada da última sexta-feira (3) em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo.
Segundo todos os relatos, o caso teve início quando a viatura da PM avançou em direção a ela e ao marido -o ajudante Luciano dos Santos, 36, -dando início a uma discussão. Logo em seguida, a soldado da PM Yasmin Cursino Ferreira, 21, desceu do carro, deu um chute na virilha de Thawanna e, diante da reação, sacou a arma e atirou no tórax dela.
Ferida, a ajudante-geral ficou mais de 45 minutos caída no asfalto até a chegada de uma ambulância, segundo moradores.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que o caso é investigado "com prioridade" na Polícia Civil e que "lamenta profundamente a morte de Thawanna da Silva Salmázio e se solidariza com seus familiares". Dois policiais envolvidos na ocorrência, inclusive a soldado que disparou, foram afastados do patrulhamento nas ruas.
A reportagem conversou com quatro moradores da rua Edimundo Audran, na Cidade Tiradentes, onde Thawanna foi ferida. Dois deles afirmaram ter visto a agressão e o tiro, e dois disseram que escutaram a discussão entre os policiais, Thawanna e o marido e viram a movimentação logo após o disparo.
Os detalhes descritos pelos moradores são os mesmos relatados pela advogada Viviane Leme, que defende a família de Thawanna e disse ter visto as imagens da câmera corporal do PM que dirigia a viatura. Yasmin não portava câmera corporal no momento da ocorrência.
"A gente percebe que não foi a Thawanne que bateu nela, não. Foi a Yasmin que deu o primeiro chute", disse a advogada. A câmera corporal não gravou as duas no momento do tiro, mas captou a agressão e a discussão, segundo Leme.
Foram 33 segundos entre o momento em que a viatura avança em direção a Luciano e o disparo, de acordo com a advogada. Tanto ela quanto os moradores descreveram uma discussão banal, com os PMs dizendo que o meio da rua não era lugar para caminhar e Thawanna perguntando se eles iam atropelá-los.
"O policial parceiro da Yasmin ainda fala 'não desce' [da viatura] e mesmo assim ela desce", relata a advogada. As imagens não foram divulgadas para a imprensa.
A Secretaria de Segurança Pública disse que as imagens registradas pelas câmeras corporais "já foram identificadas e anexadas aos inquéritos" e que a ausência do equipamento de uso obrigatório também é alvo de apuração da Corregedoria da PM. "Toda e qualquer irregularidade identificada será apurada e os responsáveis punidos nos termos da lei."
Segundo o boletim de ocorrência do caso, os PMs disseram que homem teria desobedecido ordens para se afastar da viatura, e que Thawanna teria agredido a policial com tapas nos braços e no rosto. Dois moradores disseram que viram a mulher dando apenas um tapa na mão da policial, após ela tomar o chute e um soco.
As imagens de uma câmera de segurança também contradizem outra outra afirmação no relato da PM Yasmin. Ela disse que a equipe decidiu abordar o casal porque parecia haver uma discussão entre os dois. A gravação mostra que, menos de um minuto antes do tiro, o casal caminhava tranquilo.
Moradores da rua Edimundo Audran estavam acordados porque haviam escutado ruídos de carros e motos em alta velocidade. Numa rua paralela, a Cachoeira do Campo Grande, havia adegas abertas com som alto durante a madrugada.
Vários moradores contaram que motociclistas rodavam em alta velocidade e sem capacete nas vias ao redor das adegas, fugindo das abordagens policiais, numa provocação às equipes da PM. Foi pouco depois de uma dessas perseguições que a viatura passou pelo casal e deu início à discussão.
Os moradores relataram que foram impedidos de prestar qualquer socorro ao ver a mulher ferida. "Eu saí de casa e fui em direção a ela, mas o policial apontou a arma e falou 'se vier, vai tomar [tiro]', relatou o empreiteiro Israel Campos, 48, que mora a poucos metros do local onde ela caiu. "É indignante ver uma pessoa agonizando e não poder fazer nada."
Ele confirmou o relato de que a ajudante-geral não agrediu a policial. "Quando tem perseguição, todo mundo acorda e fica na janela, esperto, porque sabe que vai ter confusão. Muita gente viu", disse o líder comunitário Erick Levi, 27.
Thawanne é mãe de cinco filhos, com idades de 5 a 16 anos, segundo familiares. Três deles dependiam diretamente da renda da ajudante-geral para comer. Ela completaria 32 anos de idade na próxima quarta-feira (8).
Protesto e toque de recolher
Na tarde desta segunda-feira (6), moradores de Cidade Tirandentes organizavam um protesto pela morte. A preparação do ato, com confecção de cartazes e convocação de vizinhos, era cercada de receio de um cerco policial violento.
Uma manifestação que ocorreu no mesmo dia da morte foi reprimida com tiros de borracha e bombas de efeito moral, relataram moradores. Entre os comerciantes da rua Cachoeira do Campo Grande, circulavam informações de que um toque de recolher seria imposto a partir das 18h.
A reportagem viu mensagens no celular de uma atendente de loja informando sobre o toque de recolher, mas ninguém soube informar de quem partira a ordem para que os comércios fechassem e os moradores ficassem em casa.
VIA… NOTÍCIAS AO MINUTO
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