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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Vorcaro pagava R$ 10 milhões à CNN Brasil e queria combinar entrevista

Mensagens reveladas pelo ICL Notícias mostram que o dono do Banco Master e a responsável pelo marketing da instituição discutiram a possibilidade de acertar previamente perguntas de uma entrevista na CNN Brasil. A emissora confirmou a relação comercial, mas negou interferência de anunciantes em sua linha editorial

© Reprodução / Banco Master

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, discutiu a possibilidade de combinar previamente as perguntas de uma entrevista à CNN Brasil, emissora que recebia R$ 10 milhões anuais em publicidade da instituição financeira. A informação foi revelada neste domingo (18) pelos jornalistas Juliana Dal Piva e Flávio VM Costa, do ICL Notícias, que tiveram acesso a mensagens trocadas entre o empresário e Ana Matos, então responsável pelo marketing do banco.

As conversas mostram que Vorcaro e a executiva buscavam espaço na programação da emissora para apresentar uma versão favorável ao Banco Master, em meio às críticas à operação de compra da instituição pelo Banco de Brasília (BRB).

Em 3 de abril de 2025, dias depois do anúncio da intenção de compra de 58% do Master pelo BRB, Vorcaro informou a Ana Matos que havia conversado com João Camargo, então presidente do conselho da CNN Brasil, sobre a possibilidade de conceder uma entrevista para abordar o balanço financeiro do banco e a negociação.

A executiva respondeu que a participação poderia acontecer naquele mesmo dia, às 18h, mas defendeu que as perguntas fossem acertadas previamente.

"Eu respondi que ele tem que combinar com a gente antes as perguntas do Naka. Todas. Antes", escreveu Ana, em referência ao jornalista Fernando Nakagawa, que trabalhava na cobertura econômica da CNN.

Em outra mensagem, acrescentou que pretendia definir os assuntos que seriam abordados na entrevista. "Tudo combinado. 100%", afirmou.

Vorcaro desistiu de entrevista e enviou economista do banco

Apesar das negociações, Vorcaro decidiu não participar pessoalmente da entrevista. Segundo as mensagens obtidas pelo ICL Notícias, o banqueiro estava preocupado com a exposição negativa que vinha enfrentando naquele momento.

O escolhido para representar a instituição foi Paulo Gala, então economista-chefe do Banco Master, que já havia recebido preparação para entrevistas.

A conversa mostra que Vorcaro preferiu aguardar a diminuição das críticas antes de aparecer publicamente.

Gala participou ao vivo do CNN Money às 18h daquele dia, em entrevista conduzida por Fernando Nakagawa. Na ocasião, defendeu a operação envolvendo o BRB e abordou o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) no sistema financeiro.

A reportagem do ICL ressalta, porém, que as mensagens divulgadas não comprovam que as perguntas tenham sido efetivamente combinadas com o jornalista ou que a emissora tenha aceitado essa condição.

Procurado pelo ICL Notícias, Nakagawa negou ter sofrido interferência na condução da entrevista. Segundo ele, foram abordadas questões relevantes e até desconfortáveis para o Master, como a oferta de CDBs com rendimentos elevados, o uso do FGC e a necessidade de buscar um sócio.

O jornalista afirmou ainda que desconhecia as negociações comerciais envolvendo o banco e a emissora.

Mensagens revelam patrocínio de R$ 10 milhões por ano

Outro ponto da investigação de Juliana Dal Piva e Flávio VM Costa envolve os valores destinados pelo Banco Master à CNN Brasil.

Em setembro de 2024, Ana Matos relatou a Vorcaro uma proposta comercial para o lançamento do CNN Money, canal especializado em economia.

Segundo as conversas, o banco já destinava R$ 10 milhões anuais à emissora, e a executiva sugeriu redirecionar esse investimento para o novo canal.

Durante a negociação, ela também mencionou a possibilidade de estabelecer restrições a determinados patrocinadores e acompanhar o conteúdo editorial para avaliar os interesses da instituição financeira.

Vorcaro concordou com as sugestões.

As mensagens também revelam que o banqueiro chegou a discutir uma possível participação societária no projeto, mencionando Rubens Menin, controlador da CNN Brasil.

Em uma das conversas, Vorcaro afirmou que pretendia entrar no conselho e que a executiva de marketing poderia participar das decisões editoriais.

Entretanto, os diálogos não esclarecem se essas negociações foram concluídas.

A CNN Brasil nega que o banqueiro tenha se tornado sócio da emissora ou do CNN Money.

Banco Master também patrocinou evento da CNN por R$ 1 milhão
A investigação revelou ainda negociações envolvendo o CNN Talks, projeto de eventos da emissora.

Em agosto de 2024, Ana Matos informou a Vorcaro que havia recebido uma proposta de patrocínio de R$ 4 milhões para um evento que reuniria empresários e autoridades.

O valor provocou surpresa entre os dois, que consideraram a quantia elevada.

Após as negociações, a executiva conseguiu reduzir o patrocínio para R$ 1 milhão.

As conversas também mostram reclamações sobre a frequência dos pedidos de recursos feitos por executivos da emissora.

Em uma das mensagens, Ana Matos classificou a CNN como outro "saco sem fundo de querer grana", referindo-se aos investimentos solicitados ao banco.

Segundo o ICL Notícias, Vorcaro acabou desistindo de participar do evento depois de saber que o presidente do Bradesco, Marcelo de Araújo Noronha, não estaria presente na mesma mesa de debates.

CNN nega interferência editorial e diz que Vorcaro nunca foi sócio

Procurada pelos jornalistas do ICL Notícias, a CNN Brasil confirmou que o Banco Master foi anunciante da emissora, mas negou qualquer participação societária de Daniel Vorcaro.

Segundo a empresa, o canal possui um único controlador, Rubens Menin, e os investimentos publicitários do Master envolveram espaços comerciais convencionais, tanto na televisão quanto nas plataformas digitais.

A emissora não confirmou o valor anual de R$ 10 milhões mencionado nas conversas, alegando que os contratos publicitários são protegidos por cláusulas de confidencialidade.

A CNN também explicou que o CNN Talks é um produto comercial, com eventos organizados em conjunto com marcas patrocinadoras e identificados como conteúdo pago.

A empresa afirmou que sua redação não participa da elaboração desses eventos e que existe separação entre as áreas comercial e jornalística.

Em nota, a emissora destacou que os executivos responsáveis por sua gestão e pela área comercial durante o período de relacionamento com o Banco Master deixaram a empresa em agosto de 2025.

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