terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Crivella tinha 'subserviência assustadora' a Rafael Alves, diz juíza em decisão

 

Rafael, de acordo com as investigações, trabalhava de uma sala na Prefeitura que ficou conhecida como "QG da Propina".

© Michel Filho/Prefeitura do Rio


Ao autorizar mandado de busca e apreensão contra Marcelo Crivella, em setembro, a Justiça citou provas apresentadas pelo MP que vinculavam o mandatário ao suposto esquema de pagamento de propina. Os celulares de Rafael Alves, apreendidos em março, foram peças-chave para associá-lo ao prefeito do Rio. Durante a operação, Crivella ligou para o empresário, mas quem atendeu foi o delegado que cumpria o mandado. Segundo a desembargadora que assina a decisão, o prefeito é quase um subordinado do empresário.


O telefone para o qual o prefeito ligou - sem saber que o aliado já estava com os agentes - havia sido encontrado sob uma pilha de roupas. Rafael, que não tinha cargos na Prefeitura mas atuaria como gerenciador de propina em troca de contratos com empresas, tentara escondê-lo.

Apenas um dos quatro aparelhos foi entregue voluntariamente pelo investigado - os outros dois, além desse que recebeu a ligação de Crivella, estavam num carro de Shana Harouche, mulher de Rafael, no qual também foram encontrados R$ 50 mil, relógios e joias. Indícios, segundo o MP, de que ele se preparava para uma eventual fuga.

"Da análise do conteúdo dos telefones celulares de Rafael Alves, apurou-se que o Prefeito Marcelo Crivella figura como um de seus mais frequentes interlocutores, tendo sido detectadas, no aparelho encontrado sob a pilha de roupas, 1.949 mensagens trocadas entre eles", apontou a desembargadora Rosa Helena Guita, do Tribunal de Justiça do Rio.

Muitas delas tinham linguagem cifrada, "deixando transparecer que seu conteúdo não poderia ser tratado por meios de comunicação convencionais". As conversas mostravam ainda que vários encontros eram marcados entre Rafael e Crivella, seja na Prefeitura ou na casa do mandatário - os dois moram no mesmo condomínio, na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade.

Por ter sido o principal articulador econômico para a campanha de Crivella em 2016, Rafael Alves - que conseguiu para o irmão, Marcelo Alves, a vaga de presidente da Riotur - exercia influência constante sobre o comandante carioca. Segundo o MP e a Justiça, o prefeito acatava ordens do empresário como se fosse um subordinado: desfazia atos administrativos a pedido dele, por exemplo. "A subserviência do prefeito a Rafael Alves é assustadora", afirma a magistrada.

Rafael, de acordo com as investigações, trabalhava de uma sala na Prefeitura que ficou conhecida como "QG da Propina". Ele nunca foi nomeado pelo Executivo carioca, mas sua função seria a de coordenar o suposto esquema de recebimento de pagamentos ilegais para viabilizar contratos de empresas com o município.

Seu poder era tanto que, segundo as investigações, empresas indicadas por ele tinham prioridade para receber pagamentos, mesmo que não estivessem dentro dos critérios prioritários do município - por causa da crise financeira que vive, o Rio não consegue quitar em dia todos os fornecedores. Há registros de mensagens do empresário em que ele determina os pagamentos como se fizesse parte do governo.

'Homem-bomba'

Por essa influência e pelo que sabe sobre Crivella, Rafael Alves é tido como um "homem-bomba". A expressão foi usada pelo marqueteiro Marcelo Faulhaber em conversa com ele. Para a Justiça, essa alcunha é uma "expressa alusão aos seus conhecimentos sobre o funcionamento de toda engrenagem criminosa que envolve o Prefeito e os demais membros da organização".

Rafael, por sua vez, fala a Faulhaber que Marcelo Alves jamais seria demitido da presidência da Riotur, por causa de "tudo que sei dele e da família dele" - em referência a Crivella. A todo momento, Rafael e Faulhaber dão a entender que têm conhecimento de casos ilegais relacionados ao prefeito e sua família. O marqueteiro, inclusive, rompeu com Crivella e enviou a Rafael uma captura de tela da conversa que teve com o mandatário. Nela, diz que "esse é um governo que rouba, que o prefeito sabe que rouba, e que mesmo assim não faz nada".

Faulhaber afirma ainda que tem registros de tudo o que aconteceu na campanha de 2016 envolvendo o tesoureiro Mauro Macedo, sobrinho do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus - Crivella é bispo licenciado da agremiação. Atualmente, o marqueteiro trabalha para o principal adversário do prefeito na sua tentativa de reeleição, Eduardo Paes.

VIA...NOTÍCIAS AO MINUTO

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