quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Se Brasil quer ser economia de mercado, tem que ter preços de mercado, diz presidente da Petrobras

 



Castello Branco ainda rechaçou acusações de pouca transparência em relação aos preços.

© Getty Images

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Um dia após anunciar o maior lucro trimestral da história das companhias abertas brasileiras, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, defendeu o alinhamento dos preços dos combustíveis ao mercado internacional e rebateu falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que o criticou por fazer home office durante a pandemia.


Castello Branco foi demitido por Bolsonaro na última sexta (19), diante de insatisfações com reajustes nos preços dos combustíveis, mas fica no cargo até que o conselho de administração da companhia aprove a nomeação de seu sucessor, o general Joaquim Silva e Luna.


O executivo vem recebendo diversas críticas tanto do presidente, de seus apoiadores e até de políticos da oposição, que questionam a política de alinhar os preços dos combustíveis às cotações internacionais, que já provocaram em 2020 altas de 35% e 28% nos preços da gasolina e do diesel nas refinarias, respectivamente.


Em videoconferência com analistas para detalhar o lucro de R$ 7,1 bilhões em 2020 divulgado nesta quarta (24), Castello Branco defendeu a política, dizendo achar "surpreendente, em pleno século 21, estarmos dando tanta atenção a isso".


"Os combustíveis são commodities, como o açúcar, o café, o trigo. São commodities cotadas em dólar, seus preços são formados pela oferta e demanda internacional", afirmou.


Ele defendeu que foi "desastrosa" a última experiência em fugir da paridade de importação no preço dos combustíveis, estratégia que teria gerado impactos negativos de US$ 40 bilhões nas finanças da companhia.


"Reduzimos a dívida [da empresa] em quase US$ 36 bilhões em dois anos, mas a Petrobras ainda é uma empresa muito endividada e nossa dívida é majoritariamente em dólares. Como é que se vai conciliar obrigações em dólares com receitas em reais?", disse.

Castello Branco repetiu argumento que já vem sendo usado em campanhas publicitárias da Petrobras, ao afirmar que pesquisas internacionais indicam que os preços da gasolina e do diesel no Brasil estão abaixo da média internacional.


"O preço não é caro nem barato, o preço é preço de mercado", frisou o executivo. "E se o Brasil quer ser uma economia de mercado tem que ter preços de mercado. Preços abaixo de mercado geram muitas consequências, algumas imprevisíveis, outras previsíveis, mas sempre negativas".


Ele defendeu que a concessão de subsídios aos preços não seria a melhor maneira de beneficiar a população. "Não atenderemos aos melhores interesses da sociedade subsidiando os preços dos combustíveis. Optamos por projetos que tenham alta taxa de retorno social, seja na educação, seja no ambiente, seja no combate à Covid."


Castello Branco ainda rechaçou acusações de pouca transparência em relação aos preços. "Nenhuma empresa divulga fórmulas de como ajusta seus preços", afirmou, completando que a concentração do refino do país em uma única empresa é uma "anomalia" não vista nem na China.

O diretor de Comercialização e Logística da empresa, André Chiarini, também defendeu a política de preços, ao comentar notícias sobre dificuldades de abastecimento do mercado brasileiro diante da queda nas importações por empresas privadas.


"Para garantir o abastecimento, precisamos manter a política de preços", afirmou, após dizer que a Petrobras tem agido para ampliar a oferta do produto às distribuidoras, mesmo em volumes superiores aos previstos em contrato.


Castello Branco ainda não havia se manifestado publicamente sobre sua demissão da Petrobras, decisão criticada por investidores e pelos conselheiros de administração da empresa, que avaliam uma maneira de questionar Bolsonaro pelas críticas públicas feitas à gestão da empresa.


Em seu discurso antes do início da viedoconferência, respondeu a uma das principais críticas do presidente da República, depois replicada por seus apoiadores em redes sociais: a de que passou os últimos onze meses "em casa, sem trabalhar".


"Home office não é uma invenção da Petrobras", disse. "Muitas empresas no mundo adotaram home office e continuam em home office. Algumas já declararam home office permanentemente."


Ele disse que a ideia é que, com o avanço da vacinação, a Petrobras migre para um modelo híbrido, com trabalho presencial e em casa, e defendeu que o home office contribuiu para reduzir custos e melhorar a produtividade da empresa.

"O home office não só reduziu a taxa de contaminação pelo vírus como também contribuiu para reduzir custos e para aumentar significativamente a produtividade. Vários estudos apontam isso. Não foi apenas a Petrobras que se beneficiou", completou.

A conferência, como tem sido costume desde o início da pandemia, foi feita de forma virtual, com cada executivo da estatal em sua casa. Castello Branco vestia uma camisa de malha com o slogan do metrô de Londres "Mind the gap" (cuidado com o vão, em tradução livre).


A frase batizou o plano estratégico da companhia elaborado por sua gestão, cujo objetivo era tentar reduzir as diferenças entre a Petrobras e suas concorrentes internacionais. Mas o termo "gap" também é usado pelo mercado para identificar a defasagem do preço dos combustíveis.


No tempo dedicado às perguntas dos analistas, a gestão atual recebeu mensagens de apoio e elogios à sua gestão. "A empresa fez grandes avanços em seu esforço de desalavancagem, no programa de de venda de ativos e a transparência omo um todo melhorou significativamente", disse André Hachem.


"É importante reconhecer que em dois anos, mesmo enfrentando uma crise global do petróleo, com preços que chegaram a ficar negativos, a gestão atual conseguiu transformar a Petrobras", acrescentou Rodolfo Angele, do JP Morgan.


O lucro de R$ 59,9 bilhões registrado pela empresa no quarto trimestre é o maior já registrado por uma empresa brasileira, segundo a consultoria Economática. O segundo maior foram os R$ 34,3 bilhões registrados pela Oi no primeiro trimestre de 2018.


Segundo a diretora financeira da Petrobras, Andrea Almeida, o resultado foi fortemente impactado pela reversão de baixas no valor contábil de ativos feitas no pior período da pandemia. Com a recuperação do preço do petróleo no fim do ano, diversos ativos tiveram suas projeções de receita elevadas.


Na videoconferência com analistas estrangeiros, a empresa foi questionada a respeito de proteções contra interferências externas em sua gestão. Almeida, lembrou que a Lei das Estatais define pré-requisitos para a indicação de nomes para a diretoria, como experiência prévia no setor ou em empresas de grande porte.

Além disso, continuou, regras internas determinam a avaliação do histórico e da integridade do candidato. Ela lembrou ainda que a Lei das Estatais determina também que o governo compense as empresas que tenham perdas com políticas definidas pelo governo.


Castello Branco disse que fará de tudo por uma "transição suave" para a nova direção, mas evitou falar de expectativas para a próxima gestão. Afirmou apenas que a diretoria atual permanece no cargo até que o novo presidente assuma e decida o que fazer.


No fim de seu discurso de abertura da videoconferência, ele disse ter tido "a sorte de ter pessoas competentes, não só na diretoria executiva, mas também nos escalões inferiores".


"A Petrobras está numa trajetória excelente para cumprir com nosso objetivo de ser a melhor companhia de petróleo e gás do mundo em geração de valor para o acionistas", afirmou, na conclusão de seu discurso na videoconferência com analistas brasileiros.


Na conclusão do evento em inglês, disse que, apesar dos avanços, ainda há "batalhas" a vencer. "Cumprimos nossa missão. Nossa missão era restruturar a Petrobras e de acordo com nossas avaliações e com o mercado, houve avanços. Mas há ainda muito a fazer. Vencemos algumas batalhas, não a guerra."

VIA...NOTÍCIAS AO MINUTO

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