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sábado, 14 de março de 2026

Circo de Tradição Familiar se torna Patrimônio Cultural do Brasil

Conheça história da família Zanchettin, que liderou reivindicação

© Zanchettin/Arquivo Pessoal

O Circo de Tradição Familiar foi reconhecido nesta semana como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e vai constar no Livro de Registro das Formas de Expressão.

Espalhada por todo o país, essa manifestação cultural é descrita pelo Iphan como itinerante, organizada em torno de núcleos familiares e de transmissão oral de saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência entre gerações.

No entendimento do conselho consultivo, favorável ao registro, essa manifestação cultural tem relevância nacional, tanto pela força na promoção de espetáculos como pelaspráticas lúdicas e pela memória social.

Reunião que aprovou o registro do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil: Foto: Oscar Liberal/Iphan.

Pioneirismo

A decisão tomada em reunião no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (11), está ligada à luta das familias que mantêm essa tradição. Fundado no Paraná, em 1991, o Circo de Tradição Familiar Zanchettini liderou esse processo.

A companhia começou pelo trabalho de Wanda Cabral Zanchettin e Primo Júlio Zanchettin, e tem sido mantido ao longo do tempo pelos dez filhos e filhas do casal e seus descendentes. Desde 1993, Wanda encabeçou a luta para que a categoria recebesse o reconhecimento que chegou mais de 30 anos depois. 

O pedido oficial de registro foi protocolado por ela no Iphan em 2005, e mobilizou famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas. A decisão desta semana, no entanto, veio após a sua morte, em 2017.

Em entrevista à Agência Brasil, Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e uma das herdeiras da tradição, reivindica o protagonismo da família nessa luta.

“Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. Tudo fomos nós, mas fizemos na abrangência de todos os circos brasileiros, principalmente, a nossa maior luta é para o reconhecimento dos nossos antepassados”, disse ela, que celebrou: “É como um Oscar para o circo brasileiro, porque é para todos”.

Ela lamentou que a mãe não tenha testemunhado a vitória. “Lutou muito por isso, mas, infelizmente, não chegou a alcançar este momento de glória. Foi a pessoa que foi na frente, nos empurrou, nos deu força e chegamos, graças a Deus, a esse reconhecimento”.

Origem

Em 1949, Wanda Cabral tinha 18 anos e atuava no circo de ciganos Irmãos Marques junto com a mãe e os irmãos. Naquele ano, o italiano Primo Júlio conheceu Wanda e se apaixonou por ela, os dois casaram e, com os parentes da mulher, montaram o Circo Teatro Gávea.

“O circo era pequeno, mas, ali, a gente aprendeu tudo. A mãe passava as técnicas pra gente. Ela sabia tudo sobre circo e sobre as artes”, contou Erimeide Maria, de 65 anos, que destacou que a mãe cresceu imersa nessa cultura.

Wanda Cabral Zanchetin e Primo Julio Zanchettin em foto do acervo familiar, por Zanchettin/Arquivo Pessoal

Em 1991, quando o marido morreu, Wanda batizou a companhia de Zanchettini para homenageá-lo.

“O pai a acompanhou nessa trajetória, como artista e palhaço. Somos dez filhos, cinco mulheres e cinco homens, e a gente foi nascendo e crescendo em barracas em volta do circo”, revelou Erimeide, que foi trapezista, cantora, acrobata, atriz, entre outras coisas.

Apesar dos apertos, ela contou que a convivência em família sempre foi boa entre os irmãos Edlamar, Erimeide, Márcia Aparecida, Solange Maria, Áurea, Silvio Marcos, Sérgio, Jaime, Márcio e Amauri.

“É uma luta difícil e continua sendo para todos os circenses, muito trabalhosa, mas com a união dos irmãos, mãe, pai e agregados, a gente teve sempre uma vida feliz em circo, que é nossa grande paixão, nosso amor”, pontuou Erimeide.

Gerações

A renovação no circo familiar é constante e, atualmente, a geração mais nova já faz parte do elenco do Zanchettini.

“Os mais novos vêm chegando, e a gente vai repassando toda a história do circo, com suas nuances. Tem uma sabedoria muito forte dentro do circo, um linguajar nosso. Tudo tem um propósito”, observou a apresentadora.

Os mais jovens da família estão mantendo a tradição e fazem suas carreiras profissionais no circo. Entre os sobrinhos, o único que saiu do Zanchettini foi para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para trabalhar também como artista circense.

“É de geração em geração. Vem da minha avó, minha mãe, meu pai, nossa família toda. Dez irmãos caminhando pelo mundo afora, montando e desmontando circo, enfrentando estradas, fazendo espetáculos, ensaiando, pegando terrenos cheios de barro e outros bonitos. É uma história muito longa de uma vida toda”, acrescentou Erimeide.

Dificuldades

Nas viagens a vários estados do Brasil e até fora do país, como o Paraguai, Argentina e Bolívia, Edlamar disse que uma das dificuldades do circo tradicional é a concorrência com apresentações de celebridades e shows gratuitos.

“Esses não têm o circo tradicional brasileiro, do palhaço da cara pintada, do trapézio, do globo da morte, do malabarismo, do contorcionismo. A gente leva o tradicional. Não temos personagens, não temos celebridades de TV, não temos dinossauros. Nós somos raiz”, afirmou.

Outra questão são os custos, como impostos e taxas cobradas pelo Poder Público. "Eles nos cobram como se fôssemos edificados, uma farmácia, um supermercado ou nos cobram como evento grande, não como cultura”, reclamou a administradora. “A prefeitura cobra o uso de solo, e a gente paga tudo adiantado. Se chover, a prefeitura já ganhou, e a gente, não”.

Os obstáculos são os mesmos enfrentados por muitos circos familiares do Brasil, e Edlamar lamentou que muitos circos pequenos e tradicionais lidam com dificuldades ainda maiores por não serem famílias tão numerosas.

“A gente já passou por vários tipos de falência, recuperamos tudo e recomeçamos de novo. É um amor tão forte e um sentimento poderoso pelo circo que a gente não sabe de onde vem. A gente não conseguiria viver longe do circo”, pontuou Erimeide.

A expectativa de Edlamar é que esse cenário de dificuldade financeira mude após o reconhecimento.

“Fica mais fácil falar com o prefeito para ver o que ele pode fazer dentro do regulamento do Iphan. Seja um preço menor, um terreno da prefeitura gratuito. Esse reconhecimento não é qualquer um que tem e será de grande valia para nós”, avaliou.


13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Casal Primo Julio Zanchettin e Wanda Cabral Zanchettin fundadores do Circo da família . Foto: Zanchettin/Arquivo Pessoal - Zanchettin/Arquivo Pessoal

VIA… AGÊNCIA BRASIL 

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