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sábado, 22 de agosto de 2026

Caí do sétimo andar, perdi a visão e parte da perna após uso de zolpidem, diz médico

Vitor Piva, 34, tomou vários comprimidos do medicamento ao chegar em casa depois de um plantão no hospital. Hoje ele faz reabilitação física para conviver com as sequelas e alerta sobre o uso excessivo do remédio

 Ahsanjaya /pexels/imagem ilustrativa

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao voltar de mais um plantão noturno, na manhã de 29 de junho de 2022, o médico Vitor Piva, à época com 30 anos, não conseguia dormir. Além do estresse do trabalho, o barulho de uma obra perto do prédio onde morava, na Consolação, bairro da região central de São Paulo, não o deixava pegar no sono.

Ele tomou um comprimido de zolpidem, medicamento para insônia que ele já estava acostumado a consumir. Vitor afirma que sabia dos riscos do fármaco, mas mesmo assim usava -e, às vezes, abusava dele- para conseguir descansar.
Como um só comprimido não fez efeito naquela manhã, ele tomou mais alguns em seguida. Não sabe dizer ao certo quantos. Só lembra que acordou na UTI sem conseguir enxergar e com parte da perna direita amputada.

Ele havia caído da sacada do seu apartamento, no sétimo andar.

Após o acidente, Vitor teve de recomeçar a vida e conviver com as sequelas. Ele diz que seu caso é um alerta sobre o uso inadvertido do zolpidem.

Desde o início da pandemia da Covid, em 2020, a comercialização do zolpidem cresceu no país. Dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mostram que, entre 2018 e 2023, as vendas saltaram de 13,2 milhões de caixas para quase 22 milhões.

Em novembro do ano passado, a ABN (Academia Brasileira de Neurologia) fez um alerta sobre o uso inadvertido do zolpidem, que transformou o medicamento mais popular para insônia em um problema de saúde pública no Brasil, com a escalada de dependência, abuso e crises de abstinência associadas às chamadas drogas Z.

O artigo foi publicado na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria. É o primeiro consenso brasileiro sobre abuso, dependência e manejo seguro dessas substâncias, que incluem também zopiclona e eszopiclona.

Em agosto de 2024, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) adotou regras mais rígidas para a venda e passou a exigir receita B (azul), de controle especial, tornando seu acesso mais restrito.

As drogas Z foram lançadas nos anos 1990 como alternativa mais segura aos benzodiazepínicos, para tratar insônia ocasional sem causar sonolência matinal. Mas as atuais evidências mostram que elas também podem provocar dependência química, crises de abstinência e eventos adversos complexos, como sonambulismo, dirigir dormindo e delírios.

Leia abaixo o depoimento de Vitor Piva, que hoje tem 34 anos.

"Desde a infância, queria cursar medicina para cuidar das pessoas. Eu morava em Cuiabá (MT), mas passei no vestibular para a Universidade de Vassouras (RJ) e me mudei para lá.

Terminei a graduação em 2018 e voltei para Cuiabá. O meu plano era passar um curto período por lá e depois me mudar para São Paulo. Mas logo veio a pandemia da Covid e adiei tudo. Fiquei em Mato Grosso até fevereiro de 2022, quando finalmente me mudei para São Paulo, cidade que sabia que seria um lugar importante para me conectar comigo e para evoluir na minha carreira.

Na capital paulista, morei com um casal de amigos. Para me sustentar, comecei a trabalhar muito. Pegava um plantão atrás do outro em hospitais públicos da cidade. Como recém-formado, eu só trabalhava mais e mais, porque a minha despesa era alta.

Havia dias em que eu fazia 12 horas de plantão, ia para casa e horas mais tarde voltava ao hospital para trabalhar. Era difícil chegar em casa e dormir, por isso eu recorria ao zolpidem. Eu comecei a usar esse remédio durante a pandemia, porque acontecia muita coisa nos plantões e isso me causava uma insônia muito ruim. Eu tomava só um comprimido e já dormia.

Mas depois que eu mudei para São Paulo, a minha vida ficou muito frenética. Eu morava praticamente sozinho, porque o casal de amigos quase não parava em casa. Eu chegava do plantão da noite e tinha que dormir. Então comecei a tomar zolpidem pela manhã.

No começo dava certo. Eu dormia tranquilamente. Só que um tempo depois parecia que o remédio já não fazia mais efeito. Em alguns dias, eu tinha que tomar mais de um comprimido. Aí eu dormia, mas apagava mesmo, em um nível que não lembrava nem como eu tinha dormido.

Já havia tido algumas reações estranhas ao zolpidem. Certa vez, comprei uma camiseta na internet. Quando chegou, eu não tinha ideia de quando havia comprado aquilo.

Também havia dias em que eu acordava com um roxo no corpo, sem saber o que tinha acontecido. Isso era porque eu havia andado pela sala, enquanto deveria estar dormindo.

Mesmo com tudo isso, eu continuava consumindo o zolpidem. É como dizem: o médico é o pior paciente do mundo, porque ele sabe dos riscos, sabe que faz mal e, mesmo assim, continua.

Naquele dia, 29 de junho de 2022, eu tinha chegado de manhã após mais um plantão noturno e não consegui dormir de jeito nenhum porque tinha uma obra do metrô perto do prédio. O barulho me incomodou muito e tomei um zolpidem, mas não consegui dormir. Depois, acredito que tomei uns quatro comprimidos, ou mais, de uma vez. Apaguei.

Eu tento reconstruir na minha memória o que aconteceu depois disso, mas foi tudo completamente apagado. Eu acho que abri a porta da sacada, que era pequena e perto da sala, para fazer alguma coisa. Depois disso, só lembro de ter acordado na UTI tentando entender o que havia acontecido.

Hoje, acredito que me desequilibrei de alguma forma e caí do sétimo andar. A minha sobrevivência é um milagre, não sei explicar. Mas tive várias sequelas pelo corpo, as principais foram a amputação da minha perna direita e a perda da visão por causa do impacto da queda.

A polícia suspeitou de tentativa de suicídio, mas eu sabia que não havia tentado tirar a minha vida. A investigação policial concluiu que o acidente foi causado pelo uso do zolpidem, que tem efeitos colaterais como alucinações e sonambulismo.

Eu fiquei internado por 90 dias. O apoio dos meus pais e do meu irmão foi fundamental nesse período. Eles se mudaram de Cuiabá para São Paulo para que pudessem me acompanhar. Sem eles, eu não teria conseguido.

Em 2024, vi uma reportagem sobre um tratamento com células-tronco na Tailândia que prometia ajudar a recuperar a visão. Fiz uma vaquinha online e tive muito apoio, consegui mais de R$ 200 mil, graças a muitos amigos. Eu viajei para fazer esse tratamento, mas infelizmente a minha visão não melhorou como eu esperava.

Mas depois desse tratamento e de todo o apoio que recebi, me senti motivado a voltar a trabalhar.

No fim do ano passado, vi uma publicação sobre perícias médicas particulares e quis entender melhor. Decidi fazer um curso sobre isso e hoje atuo na área. Mesmo com minhas limitações, consigo trabalhar na elaboração de perícias particulares para pessoas que enfrentam algum problema de saúde. Isso tem me ajudado a me sentir melhor.

Outra coisa que me ajuda muito a me sentir vivo é praticar atividades físicas.

Comecei a fazer arco e flecha no Centro Paralímpico de São Paulo e também faço musculação na academia do meu prédio. No futuro, quero fazer natação.

Nunca mais tomei zolpidem. Quando ouço alguém dizer que toma esse remédio, tento alertar que é um medicamento que deve ser usado por curto período e com acompanhamento médico, sem exagerar na dose.

Acredito que tudo o que aconteceu comigo foi um pouco por minha culpa, por ter feito o uso errado da medicação. Eu sabia dos riscos, mas não imaginava que fosse acontecer algo assim.

Até hoje continuo em recuperação e já fiz várias cirurgias por causa do impacto da queda. O meu maior sonho é voltar a enxergar. Tenho esperança de que algum dia vou conseguir."

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