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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Governo Lula consulta países sobre Conselho da Paz e avalia resposta coordenada a convite de Trump

O Planalto avalia riscos diplomáticos e jurídicos antes de responder ao convite de Donald Trump e busca coordenação com outros países, diante do temor de retaliações e de sobreposição ao Conselho de Segurança da ONU

Tânia Rêgo/Agência Brasil

(FOLHAPRESS) – O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está consultando outros países convidados a participar do Conselho de Paz antes de decidir se o Brasil vai aderir ao órgão e avalia uma resposta coordenada ao convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo pessoas a par das discussões, ouvidas sob condição de anonimato, a lista de países convidados e a reação de cada um têm sido fatores relevantes para a deliberação sobre a participação brasileira na nova organização.

O conselho integra a segunda fase do plano dos EUA para o fim do conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, mas também deve tratar de outras questões relacionadas a conflitos internacionais.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou no sábado (17) com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, sobre o tema.

Diplomatas afirmam que tanto Vieira quanto Lula devem procurar outros países para saber quais informações eles têm a respeito do conselho e qual é a posição adotada por cada governo. A avaliação é que o ideal seria uma coordenação internacional sobre a resposta a Trump.

Um diplomata envolvido nas discussões afirmou que essa articulação serviria para evitar que países se exponham desnecessariamente e fiquem sujeitos a eventuais retaliações dos EUA. Há também a expectativa de negociar os termos do conselho para que ele contemple demandas de outros países.

O mesmo diplomata citou o caso da França. Na segunda-feira (19), o governo francês informou que não pretende aceitar o convite para integrar o conselho. No mesmo dia, Trump ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses.

Integrantes do governo brasileiro minimizam o risco de deterioração das relações com o presidente americano caso o Brasil decida não participar do colegiado, avaliando que Trump terá de separar temas bilaterais de questões globais.

No entorno de Lula, o Conselho de Paz é visto, por ora, com desconfiança. A decisão final, porém, depende da conclusão de análises políticas e jurídicas sobre a proposta. O governo deve usar os próximos dias para avaliar os impactos internacionais antes de definir sua posição. O convite chegou ao presidente na sexta-feira (18).

Além de Lula, Trump convidou líderes como Javier Milei, da Argentina, Vladimir Putin, da Rússia, e chefes de governo de países como Uzbequistão, Cazaquistão, Belarus, Alemanha, França, Turquia, Egito e Polônia, entre outros. Ao todo, cerca de 60 países foram convidados, número que representa menos de um terço dos membros da ONU, segundo um auxiliar do governo.

Há preocupação no Itamaraty de que o Conselho de Paz proposto por Trump se sobreponha ao trabalho do Conselho de Segurança da ONU, o que poderia enfraquecer a organização.

Segundo dois integrantes do Itamaraty, é pouco provável que haja uma recusa sem manifestação formal. Outros diplomatas avaliam a possibilidade de deixar o convite sem resposta, como forma de evitar atritos com Trump. Caso haja resposta, ela deve ser feita diretamente entre os presidentes, já que o convite foi enviado por carta pessoal ao Brasil.

Como revelou a Folha, o estatuto do Conselho de Paz prevê mandatos de três anos para cada Estado-membro, com possibilidade de renovação. A organização funcionaria com base em contribuições voluntárias, e países que contribuírem com pelo menos US$ 1 bilhão garantiriam um assento permanente.

Os detalhes sobre o funcionamento do grupo ainda não estão claros. A proposta recebeu críticas do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, que afirmou que o anúncio não foi coordenado com Tel Aviv e que a iniciativa vai na direção oposta à política adotada por seu governo.

No início da semana, alguns países confirmaram o recebimento do convite, como Israel, segundo o jornal Times of Israel. O gabinete de Netanyahu ainda não se manifestou oficialmente sobre a participação.

Na sexta-feira (16), Trump anunciou os primeiros nomes que devem compor o grupo, entre eles o secretário de Estado Marco Rubio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, os enviados para o Oriente Médio Steve Witkoff e Jared Kushner, o bilionário Marc Rowan, o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, e o assessor presidencial Robert Gabriel.

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