quarta-feira, 31 de março de 2021

Desemprego, fome e falta de teto escancaram a miséria na São Paulo pandêmica

 

Em meio à pior crise sanitária da história do país, desempregados, moradores de rua, pessoas que já não conseguem pagar um aluguel enchem as ruas de São Paulo

© Getty Images

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Não sinto mais dor. Pra falar a verdade, nem o dedo", diz Gilvan Mauro da Silva, 26. Falta um pedaço de seu polegar direito, vermelho e infeccionado. A ponta do osso está exposta, parcialmente coberta por um pele amarelada e viscosa. Com a outra mão, o homem usa uma marreta para pregar um pedaço de madeira. Está levantando um barraco.

Após quase um ano dormindo na rua ele, que já desistiu de procurar emprego de pedreiro, vai passar a noite entre quatro paredes -de madeira recolhida das ruas.

Em meio à pior crise sanitária da história do país, desempregados, moradores de rua, pessoas que já não conseguem pagar um aluguel enchem as ruas de São Paulo.

Novos barracos, filas maiores por comida e o evidente aumento dos sem-teto -23 mil, de acordo com a Prefeitura de São Paulo ou ainda mais segundo cadastro do Ministério da Cidadania: 33.292 famílias- criam novos desenhos na cidade. No centro e na periferia, os efeitos são visíveis.

Enquanto isso, moradores da capital que podem passam os dias fechados em casa, cumprindo a recomendação de médicos e especialistas para conter a disseminação do coronavírus.

Ao lado da futura casa de Gilvan, feita de material reciclável, João Vitor de Oliveira, 25, já ergueu seu novo endereço. Desempregado há três semanas, não tinha mais como pagar R$ 600 de aluguel. Foi despejado há duas. Foram 15 dias vagando pela cidade. Sua companheira, Letícia Alves da Silva, 18, é irmã de Laís, 20, mulher de Gilvan. Ao menos estão juntas de novo.

João dormia com a mulher e a filha de dois anos sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, no Tatuapé, zona leste de São Paulo.

Um dia assistiu homens da prefeitura colocarem pedras pontiagudas do lado de lá da avenida Salim Farah Maluf. Depois, viu um senhor de 72 anos, um padre, usar uma marreta para retirar os blocos que impediam que moradores de rua, como ele, tivessem o chão do viaduto como teto.

Mais alguns dias e, à distância, reparou que um grupo se instalara no local. Foi questão de horas para que uma pilha de madeira aparecesse e o primeiro barraco surgisse. Um, dois, cinco, dez.

Desconfiado, João tratou de atravessar a avenida. Foi bem recebido. Havia material suficiente para ele erguer quatro paredes de madeira -sem teto. Notícias assim correm, e sua mulher deu um jeito de alertar a irmã. Gilvan, que havia passado alguns dias no hospital para conter a infecção no dedo, que começou como uma pústula e ameaçava se espalhar, foi convencido por ela a também tentar a sorte.

João Vitor, Letícia, Gilvan e Laís fazem parte da cidade que se reconfigura sem ser vista. Ali, sob o viaduto, os 15 barracos já prontos formaram uma pequena favela. A luz vem de um gato da rede elétrica. Não há água, esgoto, espaço ou esperança de algo melhor, mas não estão dormindo na rua.

Por vezes, seus moradores usam máscaras, recebem álcool em gel de doações, mas o perigo da contaminação não é a principal preocupação. Existir vem antes.

A medida do que acontece nas ruas da capital e do estado de São Paulo durante a pandemia se observa de diferentes formas. Em 2019, foram 22.443.643 refeições servidas nas 59 unidades da rede de restaurantes populares Bom Prato. No ano passado, 30.494.007, aumento de 36% que reflete a crise desencadeada pelo avanço do coronavírus.

Em fevereiro deste ano, já durante a pior fase da pandemia, foram 2.770.151 refeições. No mesmo mês do ano passado, 1.640.733.

Em meados de 2020, moradores de rua que recusaram encaminhamento para serviços das prefeituras do estado receberam um cartão que lhes permite se alimentar de graça na rede. De um total de 12.488 cadastrados, 8.000 estão na capital.

Na favela que se formou sob o viaduto na Salim Farah Maluf a ajuda chega pelas mãos de padre Júlio Lancellotti, o mesmo que tratou de arrancar as pedras colocadas pela prefeitura e que impediam os moradores de rua de dormir no local.

"Eles estão por aí, jogados, esquecidos, não faz sentido impedir que tenham um abrigo. Em meio à pandemia não têm acesso a água, dignidade, nada", diz o religioso, coordenador da Pastoral do Povo de Rua em São Paulo.

Igor de Jesus, 25, e a mulher, Geovana Almeida, 20, as filhas Lunna, 1, e Carolin, 5, foram os primeiros a chegar por ali. Catador de materiais recicláveis, o rapaz viu seu ganho despencar durante a pandemia. O casal morava em uma ocupação na zona leste e acabou indo parar na rua após uma ação de reintegração de posse. "Consigo menos da metade de antes e na rua dobrou o número de catadores", diz.

Com um Monza 92 transformado em caminhonete, emprestado por um colega também catador, Igor recolhe o que pode.

"A madeira que a gente cata, a comida que dão pra gente, é tudo pra tudo mundo", afirma. "Aqui, dormia apenas uma pessoa, um homem que só pegava comida do lixo, passava o dia sem falar com ninguém."

Na última semana, a prefeitura começou a pagar a nova etapa do auxílio emergencial municipal. As parcelas são de R$ 100 e R$ 200 pagas nos meses de março, abril e maio. Outros três pagamentos já haviam sido feitos no ano passado, de forma acumulada, em dezembro.

De acordo com a prefeitura, quase 1,3 milhão de pessoas serão beneficiadas com a nova rodada do auxílio, que prevê pagar R$ 398 milhões.

A necessidade também pode ser medida a 2 km dali, na Mooca, no núcleo São Martinho de Lima, mantido em parceria entre a prefeitura e o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, e coordenado por padre Júlio.

Ao longo de 2020, o percentual das pessoas atendidas pela primeira vez no local passou de 46% para 60% do total. "É um reflexo de como mais gente tem ido parar na rua durante a pandemia", diz o religioso.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirma que criou 1.979 novas vagas para atender a população de rua durante a pandemia, e que ampliou a oferta de serviços nos quais elas têm acesso a refeições, banheiros, kits de higiene e orientações.

A administração municipal também informa que faz a busca ativa para abordar pessoas em situação de rua e oferece acolhimento nos equipamentos da rede socioassistencial. "Importante ressaltar que o aceite é voluntário. A população também pode ajudar solicitando uma abordagem social pela Central 156", diz em nota.

Sobre os moradores que estão vivendo sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, a prefeitura diz que foram abordados pelo serviço municipal, mas não aceitaram receber qualquer tipo de atendimento.

Segundo a administração municipal, há um projeto de uma quadra poliesportiva para o local que já está em andamento. "Foi realizado um processo licitatório para realização da obra, no entanto, o contrato encontra-se suspenso por até 120 dias, ou até que exista viabilidade financeira dentro do exercício de 2021", diz a nota.

Até lá, se nada mudar, mais gente deve ir parar nas ruas. Na frente do centro de acolhida coordenado por padre Júlio, o movimento é intenso e crescente.

Ali, em uma das barracas montadas lado a lado na calçada, Irineu Rosa dos Santos, 53, tenta arrumar dinheiro pra comprar um pequeno botijão de gás. Há duas semanas, usa pedaços de paus para fazer uma fogueira e poder cozinhar.

Desempregado, o homem vive de bicos, entrega de comida, limpeza, o que aparecer. No entanto, não aparece mais nada. Casa, emprego, não são coisas com que ele sonhe mais. O tempo na rua passa rápido e transforma as pessoas, ele diz.

"Ando sozinho. Não preciso de companhia. Nessa situação que estamos aqui, é melhor não estar com mais ninguém", afirma.

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