quinta-feira, 15 de julho de 2021

Justiça decreta prisão de PMs suspeitos de simular tiroteio para esconder assassinato

Segundo as polícias Civil e Militar de São Paulo, agentes criaram uma situação para tentar acobertar um assassinato cometido

 

© Sergio Flores/Getty Images

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Copom, Força Tática 023, com certa [urgência]." O grito de alerta quebrou o silêncio nos rádios da Polícia Militar de São Paulo na madrugada do último dia 11 de julho. Depois de repassar dados da placa de um Voyage prata, em suposta perseguição, os policiais continuam o chamado com novas informações.

"Positivo: pela rua, rua pavimentada Belmira Marin, Belmira Marin, na pavimentada, troca de tiro com a equipe. Indivíduo baleado", informou o policial com eloquência o suposto tiroteio, em comunicações iniciadas às 3h01.

Era um teatro, segundo as polícias Civil e Militar de São Paulo, para tentar acobertar um assassinato cometido pelos PMs momentos antes. A prisão preventiva (sem prazo para terminar) dos três envolvidos na ocorrência foi decretada na noite desta quarta (14) pelo juiz da 1ª Auditoria do TJM (Tribunal de Justiça Militar), Ronaldo João Roth, que classifou a ação como ato "gravíssimo".

Os indícios contra os polícias são muito fortes. Os disparos que mataram o "indivíduo", Vinícius Texucla Oliveira, haviam sido feitos quase uma hora antes (2h13), distante cerca de 1,5 quilômetro de onde o confronto fictício foi armado pelos PMs da Força Tática 023.

As imagens, obtidas pelos investigadores e divulgadas pela Corregedoria da PM nesta terça-feira (13), mostram que nem confronto houve. A Polícia Civil também pediu a prisão dos suspeitos.

Elas mostram que Oliveira obedeceu a ordem dos policiais, parou o veículo e, quando descia dele, foi baleado várias vezes. Depois de ferida e, possivelmente, já morta, a vítima foi colocada no banco do próprio carro e levado para uma rua deserta, onde os PMs simularam a troca de tiro.

Nos relatórios preenchidos pelos policiais naquela mesma madrugada -outro indício de fraude, segundo os investigadores-, os PMs informaram que o suspeito baleado por eles não tinha sido identificado até a conclusão dos documentos de prestação de informações.

Investigação da Corregedoria descobriu, porém, que antes mesmo de acionarem o Copom (centro de operações), o RG da vítima havia sido consultado às 02h43, "ficando evidente que, além do homicídio e da fraude processual, há fortes indícios do cometimento de crime de falsidade ideológica pelos policiais militares", segundo trecho do pedido de prisão feito pela Corregedoria.

Na versão dada à Polícia Civil sobre o confronto, os PMs alegaram que Oliveira estava no veículo acompanhado por mais duas pessoas, que também teriam efetuado disparos mas conseguido escapar.

Uma criação dessa versão, comprovadamente inverídica, é tentar justificar as manchas de sangue no banco traseiro do veículo.

Em sua decisão, o magistrado do TJ disse que os fatos levados a ele "são gravíssimos" porque levaram à morte de Oliveira "alvejado sem que oferecesse qualquer resistência, conforme as imagens juntadas aos autos".

"Ademais, os policiais envolvidos deslocaram-se para local diverso, omitiram abordagem anterior e, em tese, simularam ocorrência de 'morte decorrente de intervenção policial', comunicada ao Copom quase 1h depois."

Ainda de acordo com a decisão de Roth, os PMs se afastaram do seu dever funcional "colocando em dúvida a credibilidade da instituição Polícia Militar, o que demonstra a necessidade da prisão para a garantia da ordem pública".

O batalhão em que os PMs trabalham ainda não está integrado ao programa de câmera "Olho Vivo", que grava as ações policiais por tem integral.

O advogado Renato Soares, defensor dos três policiais, afirmou que, até o momento, nenhum deles deu qualquer declaração formal sobre o caso.

"Primeiro ponto, importantíssimo, é que eles não foram ouvidos formalmente em lugar nenhum. Segundo ponto: a ação versou legítima defesa e está bem clara no vídeo", afirmou ele.

Soares afirmou que não teve acesso à nota divulgada pela Corregedoria, mas disse que isso não muda o fato de eles serem inocentes.

"Criou-se um estereótipo da situação sem o depoimento dos policiais. Só há imagens até o momento. A ação foi legítima. O suspeito morto é envolvido com a criminalidade, tendo envolvimento inclusive com 157 [roubo]. Os PMs não o conheciam e não tinham motivos [para matar]. A ação policial foi legítima", reforçou.

Sobre detalhes do vídeo, o advogado informou que os PMs "irão apresentar uma justificativa de que agiram de forma correta".

VIA...NOTÍCIAS AO MINUTO

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