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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Homem que arrastou ex em MG repete roteiro de brutalidade de caso Tainara

Casos em Minas Gerais e São Paulo expõem padrão de violência extrema contra mulheres, com uso de veículos como instrumento de agressão. Especialistas apontam misoginia incentivada em grupos virtuais, histórico de violência dos suspeitos e falhas na prevenção como fatores que agravam o cenário

© Reprodução
(UOL/FOLHAPRESS) — O caso do homem suspeito de arrastar a ex-namorada por cerca de 400 metros com um carro em Morro do Pilar, em Minas Gerais, repete um padrão de violência extrema que marcou a morte de Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada em novembro, em São Paulo. Para advogadas ouvidas pelo UOL, episódios como esses revelam uma escalada brutal da violência contra mulheres no país.

Casos repetem método

Nos dois episódios, o atropelamento foi usado como instrumento de agressão. Em Minas, segundo o delegado David Nascimento, o suspeito abordou a ex-companheira, que estava com o atual namorado dentro de um carro. Para evitar conflito, a jovem se aproximou da janela do veículo do ex, momento em que ele arrancou bruscamente e a arrastou por vários metros.

Situação semelhante ocorreu com Tainara, atropelada por Douglas Alves da Silva, de 26 anos, após sair de um bar na zona norte de São Paulo. Imagens mostram a jovem sendo arrastada pela rua até a Marginal Tietê. Em Minas, a vítima foi arrastada por aproximadamente 400 metros. “É um método covarde que demonstra incapacidade de lidar com a rejeição”, afirma a promotora Fabiana Dal’Mas, do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo.

Fuga após os crimes

Nos dois casos, os suspeitos fugiram após o atropelamento. Douglas foi preso no domingo seguinte ao crime. Já o homem investigado em Minas é procurado desde 15 de fevereiro, quando câmeras de segurança registraram a agressão.

Inicialmente tratado como tentativa de feminicídio, o caso de Tainara foi reclassificado como feminicídio consumado após a morte da jovem, que chegou a ter as pernas amputadas e passou por diversas cirurgias. Em Minas, a investigação aponta para tentativa de feminicídio. Segundo o delegado, imagens indicam que o suspeito engatou marcha à ré durante o episódio. “Não há dúvidas de que foi uma tentativa de feminicídio”, declarou.

Histórico de violência

Ambos os investigados já tinham registros anteriores. Douglas possuía histórico de comportamento agressivo e antecedente por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. O suspeito de Minas acumulava ao menos dois boletins de ocorrência por violência doméstica e um pedido de medida protetiva, inclusive da própria vítima.

Para Dal’Mas, esses crimes não são atos isolados. “Não são explosões momentâneas, mas expressão de uma lógica de controle sobre o corpo feminino”, afirma.

Escalada da misoginia

Especialistas apontam que a brutalidade crescente está ligada à disseminação de discursos misóginos na internet. A presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB, Maíra Recchia, afirma que a violência ganha estímulo em ambientes virtuais. “Há grupos organizados em plataformas como Telegram e na deepweb que incentivam crimes contra mulheres”, diz.

Segundo ela, esses espaços reforçam discursos de ódio e até oferecem apoio jurídico a agressores. “Homens que antes sentiam vergonha passam a encontrar validação nesses grupos”, afirma.

Subnotificação e falhas no enfrentamento

A promotora Dal’Mas alerta para a subnotificação de tentativas de feminicídio, muitas vezes registradas como lesão corporal ou homicídio simples. Para ela, é fundamental capacitar autoridades policiais para identificar corretamente a natureza dos crimes. “A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio foram avanços importantes, mas ainda há subdimensionamento”, diz.

Pacto considerado insuficiente

No início de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu representantes dos três Poderes para anunciar um pacto contra o feminicídio. O evento, porém, foi marcado por discursos e pela criação de um comitê com representantes do Executivo, Legislativo e Judiciário, sem medidas concretas imediatas.

Para Recchia, o enfrentamento exige ações mais incisivas, especialmente no combate à misoginia digital. “Não adianta anunciar pacto sem investigar os grupos que fomentam o ódio contra mulheres na internet”, afirma. Segundo ela, também é necessário dar mais atenção às violências psicológica e patrimonial, que muitas vezes antecedem agressões físicas graves.

Os casos recentes reforçam o alerta de especialistas: o feminicídio não é um ato isolado, mas o desfecho extremo de uma cadeia de violência estrutural que ainda encontra terreno fértil para se reproduzir.

VIA… NOTÍCIAS AO MINUTO   

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