terça-feira, 23 de março de 2021

Anthony Hopkins volta à glória em 'Meu Pai', indicado a seis estatuetas no Oscar

 

"Os últimos anos têm sido incríveis", diz ele, que em 2020 garantiu sua primeira indicação ao Oscar em duas décadas, por "Dois Papas"

© Getty Images


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Anthony caminha devagar por um apartamento decorado com tons neutros e mobiliário elegante. Anne, sua filha solteira, chega para uma visita, conversa com ele e sai. Pouco depois, a cena praticamente se repete -com a exceção de que, agora, a herdeira tem outro rosto, é casada e o imóvel já não pertence mais ao protagonista de "Meu Pai".


Pode parecer confuso, mas é justamente essa a proposta do filme -mergulhar o espectador na desordem e fragilidade da mente de 83 anos de Anthony, personagem que recebeu o mesmo nome e idade de seu intérprete, o lendário Anthony Hopkins.

O trabalho do sir britânico vem sendo celebrado, por críticos mundo afora, como o melhor de sua longa carreira em muitos anos. Rendeu indicações ao Globo de Ouro, ao Bafta, ao SAG e também ao Oscar. "Meu Pai" -que tem previsão de estreia para abril, caso a pandemia permita– concorre ainda em outras cinco categorias do prêmio -atriz coadjuvante, roteiro adaptado, montagem, design de produção e melhor filme.

Não fosse a comoção em torno da indicação póstuma de Chadwick Boseman, por "A Voz Suprema do Blues", seria fácil pensar em Hopkins como o favorito da disputa pelo homenzinho dourado.

Em "Meu Pai", a vida do protagonista octogenário vai se extinguindo lentamente, diante da demência que o acomete e que o leva a situações que causam constrangimento e preocupação na filha, ora interpretada por Olivia Colman, de "The Crown", indicada ao Oscar pelo papel, ora por Olivia Williams.

Anthony culpa sua cuidadora por roubar um relógio que ele escondeu -mas não lembra onde- e o genro por armar um golpe para ficar com seu apartamento. Tudo com tamanho empenho e convicção que leva o espectador a questionar se, de fato, o homem não está sendo vítima de uma falcatrua.

"Eu espero que a história não assuste as pessoas, mas eu também não acho que as vai confortar. Então eu apenas espero que ela cause algum impacto emocional no público, porque fala de uma tragédia humana da qual todos nós vamos sofrer um dia", diz Hopkins, em entrevista por videoconferência. "Nós vivemos e então morremos. É isso."

Aos 83 anos, o ator não parece cansado, nem pensa em se aposentar. Durante 20 minutos, ele conversa com um grupo de jornalistas sobre o filme, escancarando toda a experiência de um senhor, mas com a empolgação e jovialidade de um menino.

Hopkins foge das perguntas inúmeras vezes para divagar sobre a vida, a carreira ou para recitar poemas de T. S. Elliot, justificando que está "cheio de anedotas hoje". Ao lado, num quadradinho de uma dessas plataformas de vídeo que se tornaram onipresentes na pandemia, a colega de elenco Olivia Colman ri. "Viu, ele fazia isso o tempo todo no set, fazia todos chorarem e rirem", diz ela.

Os dois trocam elogios e brincam um com o outro como se fossem velhos amigos. Eles têm uma sintonia nas telas -nas de videoconferência e nas do cinema- que faz Hopkins se lembrar de Jodie Foster, sua grande parceira em "O Silêncio dos Inocentes", filme pelo qual ele venceu seu único Oscar e que completa 30 anos.

Ele embarca na onda de elogios que vem recebendo da crítica e decide comparar o mais aclamado de seus trabalhos, na pele do assassino canibal Hannibal Lecter, a "Meu Pai". Nos dois filmes, ele diz, não conteve a emoção ao ler o roteiro pela primeira vez -foram ambos papéis muito além do que ele jamais poderia imaginar para sua carreira.

No caso do novo longa, é difícil pensar em outro membro da velha guarda hollywoodiana assumindo o protagonista senil. Originalmente uma peça, "Meu Pai" tem origem francesa. Foi concebido por Florian Zeller, hoje um dos nomes mais festejados do teatro. Fã confesso de Hopkins, ele chama de obsessão sua vontade de ter o veterano como protagonista deste que é seu primeiro trabalho como diretor nos cinemas.

Daí, em parte, o motivo de ter reescrito o papel para a nova versão, atrelando a ele o nome e a idade de seu muso. Zeller também queria que o público tivesse facilidade em se identificar com Anthony e o sofrimento de seus familiares, e imaginou que Hopkins, por ser uma presença constante nas telas nas últimas décadas, poderia ser visto por muitos como um pai ou avô distante.

Segundo o cineasta, mesmo que Hopkins acumule trabalhos tão diversos quanto o sereno Bento 16 de "Dois Papas" e o aterrorizante exorcista de "O Ritual", "Meu Pai" é uma oportunidade de o ator explorar um novo tipo de personagem. "Você o conhece por papéis de pessoas muito inteligentes, sempre no controle da situação. Eu pensei que seria angustiante ver esse homem perdendo esse controle", afirma Zeller.

É fácil lembrar trabalhos como o próprio "O Silêncio dos Inocentes", com seu antagonista frio, calculista e manipulador, e até mesmo de "Thor", da Marvel, em que viveu o deus nórdico Odin, que lidera o reino de Asgard com mãos de ferro.

Depois de tantos papéis icônicos, Hopkins diz que ainda há espaço para mais e comemora o fato de, nos últimos anos, continuar sendo reconhecido por público e crítica, em vez de se juntar ao limbo para o qual as memórias do protagonista de "Meu Pai" se encaminham gradualmente. Esse é um perigo com o qual flertou ao aceitar trabalhos que foram, no mínimo, embaraçosos para um ator de sua magnitude, como na franquia "Transformers".

"Os últimos anos têm sido incríveis", diz ele, que em 2020 garantiu sua primeira indicação ao Oscar em duas décadas, por "Dois Papas". "Eu olho para trás e chego à conclusão que sou o cara mais sortudo do mundo."

Para manter a boa forma e a mente saudável, não como a do personagem em "Meu Pai", ele diz que lê e relê os roteiros que recebe inúmeras vezes, além de tocar piano e pintar, tudo para "manter o cérebro ativo".

Durante as filmagens do novo longa, um cuidado extra. "Todos os dias, antes de ir ao set, eu acordava, me olhava no espelho e dizia 'isso é só um jogo, eu não estou sofrendo de demência e vou muito bem, obrigado'", brinca. "Nosso cérebro não é tão esperto quanto achamos, é preciso falar com ele de vez em quando e deixar claro que tudo não passa de atuação."

VIA...NOTÍCIAS AO MINUTO

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