sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Violência no Líbano reflete cansaço com Estado que parece existir menos a cada dia

Corrupto, ineficaz e falido, o governo não consegue mais prover eletricidade para a população, obrigada a gastar seus salários para pagar a máfia de geradores de energia

© Getty

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - A erupção da violência em Beirute nesta quinta-feira (14), que deixou ao menos seis mortos, não surpreende. Exceto, talvez, por ter demorado tanto para acontecer. Já há meses, afinal, quem está atento ao país alerta para esse risco.

Isso não tem a ver com os libaneses -ou os árabes e muçulmanos- serem propensos à violência. Essa é uma horrível fantasia orientalista. A expectativa de que o país afunde em uma espiral de embates está relacionada à crise social e econômica vivida no país, onde o Estado parece existir menos a cada dia. Quando o governo existe, aliás, é como se estivesse contra os seus cidadãos.

Beirute tem personificado a expressão árabe "madfun bi-l-haya" ou "enterrado pela vida". Refugiados sírios cogitam voltar ao país vizinho, destruído por uma guerra, onde enxergam mais oportunidades -o que indica o quão infernal é o cotidiano na capital libanesa. Há um desgosto generalizado contra um sistema político que claramente não funciona, fomentando protestos e arroubos de violência.

Corrupto, ineficaz e falido, o governo não consegue mais prover eletricidade para a população, obrigada a gastar seus salários para pagar a máfia de geradores de energia. Ainda assim, apenas conseguem ter luz por algumas horas ao dia.

Sem eletricidade para carregar computadores e celulares, não conseguem trabalhar a distância. Tampouco têm internet. É impossível manter uma geladeira funcionando, o que obriga as pessoas a adaptar a dieta a refeições imperecíveis ou a encomendar a cara comida por entrega. As contas, é claro, já são impagáveis.

Os culpados estão claros: a classe política que sequestrou o país. Já há anos o Líbano basicamente toma empréstimos para pagar empréstimos, acumulando uma dívida descontrolada.

A moeda libanesa se desvalorizou a um ritmo alucinado, o PIB (Produto Interno Bruto) encolheu e metade da população vive hoje abaixo da linha da pobreza. Segundo um relatório recente do Banco Mundial, o Líbano pode passar pela pior crise econômica do mundo desde o século 19.

Nesse contexto, a explosão no porto de Beirute no ano passado pode parecer um golpe inclemente de um destino já pouco generoso. Como disse a premiada escritora libanesa Hoda Barakat em uma entrevista recente ao jornal Folha de S.Paulo, é como se Beirute fosse regida por um planeta cruel.

Mas aquele desastre, que deixou 200 mortos e destruiu partes da cidade, não é má sorte. É político. Foi justamente a corrupta classe política que permitiu o estoque de explosivos no porto por onde passam os grãos que alimentam a população. Como a Justiça ainda não puniu os responsáveis pela explosão, a população tem ido às ruas protestar e pedir uma reforma política.

A manifestação desta quinta-feira tinha sido convocada pela facção xiita Hizbullah, considerada terrorista por países como os Estados Unidos e Israel. O grupo diz que as investigações sobre o desastre no porto são enviesadas para condená-lo e pede que o juiz responsável seja afastado.

Agravando uma situação já bastante volátil, o Hizbullah acusa a facção cristã Forças Libanesas pelo tiroteio. Que diferentes comunidades religiosas estejam posicionadas em lados opostos é imensamente preocupante -o Líbano viveu uma guerra civil entre 1975 e 1990.

O ex-primeiro-ministro Saad al-Hariri evocou esse cenário ao criticar, em uma rede social, a violência. "O que aconteceu hoje nos trouxe de volta à memória as imagens da guerra civil", escreveu.

Analistas políticos também apontaram nos tiroteios de quinta-feira um sinal de que a população está cansada da interferência do Hizbullah em sua política. A facção, que se apresenta como um movimento de resistência, tem se tornado cada vez mais o sinônimo das estruturas do Estado.

Sempre parece ser cedo demais para falar que existe o risco de o país viver outro embate sistemático, como o dos anos 1970. É necessário ter cautela, não ser alarmista. Mas é difícil ignorar, por outro lado, o quanto a situação tem piorado.

O tiroteio desta quinta-feira, ademais, aconteceu justamente em uma das linhas que separava cristãos de muçulmanos na guerra civil.

Com esse cenário tão pessimista, os libaneses ainda conseguiram encontrar algum alento em seu humor, durante o dia. Circulava nas redes sociais um vídeo dos tiroteios. Homens armados disparavam de trás de um muro. Enquanto isso, um senhor passava por eles, indiferente, fumando o seu cigarro. Parecia ser a imagem essencial de um país que tem sobrevivido a tudo.

Via...Notícias ao Minuto 

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