sexta-feira, 8 de abril de 2022

Eleição de Le Pen na França seria suicídio, diz ex-presidente do Parlamento europeu

Marine Le Pen comandava um agrupamento de partidos de direita radical de diversos países

© Gonzalo Fuentes/Reuters

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ex-presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, 66, tem más lembranças de um ritual que precisava cumprir todas as quartas-feiras, quando se reunia com os líderes de blocos políticos na Casa. Isso porque uma figura constante nos encontros era a francesa Marine Le Pen, que comandava um agrupamento de partidos de direita radical de diversos países

Hoje, ela é pela terceira vez candidata a presidente da França, com chance real de chegar ao segundo turno e reduzindo a vantagem do presidente Emmanuel Macron nas pesquisas. O primeiro turno será disputado neste domingo (10).

Uma vitória de Le Pen, diz Schulz, seria um desastre para a União Europeia. "É uma ameaça, e a questão em aberto é a margem de manobra. Se ela tentasse levar a França a sair da União Europeia, seria uma forma de suicídio. Destruiria a UE e também destruiria a França", afirma.

Um dos principais líderes da esquerda alemã, Schulz preside a Fundação Friedrich Ebert, ligada ao SPD, partido do premiê Olaf Scholz. Em São Paulo para participar de um evento com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) -a quem espera ver vitorioso na eleição-, ele falou à Folha de S.Paulo na última terça (5).

O político foi eurodeputado por 23 anos e chegou a liderar o partido Social-Democrata, condição na qual enfrentou a então primeira-ministra Angela Merkel na eleição geral de 2017; sua legenda na ocasião ficou num distante segundo lugar, com 20,5% dos votos.

Na entrevista ele elogia a resposta que a Alemanha e a UE estão dando à guerra na Ucrânia e diz serem injustas as acusações de que o país protegeu o russo Vladimir Putin nos últimos anos, em razão de relações econômicas e energéticas.

Ex-vendedor de livros e militante de esquerda desde a juventude, Schulz ostenta no currículo ter sido comparado a um "guarda de campo de concentração nazista" pelo então primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi em um debate no Parlamento Europeu em 2003, episódio que causou protestos no bloco.

Mesmo assim, diz que a atual ultradireita é mais perigosa que a de duas décadas atrás.

PERGUNTA - Como o sr. vê a possibilidade de vitória de Lula e qual seria o impacto para as relações entre Brasil e Alemanha?

MARTIN SCHULZ - É óbvio que o atual presidente do Brasil não partilha de forma alguma de nossa visão sobre as relações internacionais. Sua filosofia é de uma estratégia unilateral, completamente diferente do que o novo governo alemão está trabalhando.

PERGUNTA - No caso do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, há a possibilidade de incorporar temas como a agenda do clima, por exemplo?

MS - O acordo com o Mercosul é um dos mais importantes para as relações econômicas e internacionais da União Europeia. Uma precondição é saber se o conteúdo é realmente compatível com as necessidades de nosso tempo. Há uma questão ecológica no pós-COP [conferência do clima].

E um segundo elemento é saber se multinacionais vindas da Europa consideram esse acordo uma ferramenta para se tornarem mais competitivas, porque seus investimentos na América Latina, por exemplo, ou no Brasil levariam a padrões menores para o meio ambiente, a reduzir salários e diminuir direitos de sindicatos. Nesse caso, você nunca terá uma maioria no Parlamento Europeu para isso, ou em alguns dos países-membros. Portanto, não estou certo nesse momento de que estamos tão adiantados como deveríamos para que seja imediatamente ratificado.

P. - O sr. diria que uma reeleição de Bolsonaro dificultaria mais esse processo?

MS - Meu receio é que a imagem do Brasil durante o mandato do presidente Bolsonaro tenha sofrido muito. Se vejo nossa estratégia na Europa contra a Covid e as de Bolsonaro, são completamente incompatíveis. A atuação dele não contribui para a cooperação com outras partes do mundo, mas isso está ligado à livre escolha de uma nação.

P. - Como o sr. avalia a resposta da UE à invasão russa da Ucrânia?

MS - E especificamente da Alemanha, que sempre foi considerada um dos países mais próximos da Rússia e de Putin? Esse é um debate em todo o mundo, e me surpreende. Se eu declaro que os traídos são os culpados, então absolvo a traição. Até o último minuto a diplomacia internacional –não apenas a alemã, mas também a americana, francesa, britânica, italiana– tentou evitar esses passos militares. Eu estive em Moscou em novembro e encontrei o ministro [das Relações Exteriores Serguei] Lavrov, que me disse: "Me dê uma razão pela qual devemos invadir aquele país". E agora temos um debate de que aquelas pessoas que foram traídas pelos russos são as responsáveis pela guerra. É um debate estranho.

Há muitas críticas à maneira como o gasoduto Nord Stream 2 foi negociado, de que teria sido algo muito favorável a Putin.

P. - Como o sr. vê a relação do ex-premiê Gerhard Schröder com a Rússia [O político é membro do conselho de administração da Rosneft e da Gazprom]? Não é algo constrangedor para seu partido?

MS - Quando eu era criança, nos anos 1960, a maior notícia era que a Mannesmann, uma grande empresa de aço, vendeu canos para a União Soviética mandar gás para a Alemanha. O comércio de gás entre a Alemanha e a Rússia tem 60 anos. Sempre foi algo sério para ambos os lados.

Agora Putin está quebrando todas as regras. Por que Schröder se tornou diretor do Nord Stream 2?

Essa é uma empresa que inclui alemães, holandeses e russos. Os russos com 51%, os europeus com 49%, mas o presidente do conselho era europeu. E foi Angela Merkel que sugeriu o nome de Schröder, já que era quem tinha naquele momento a melhor relação com Putin. Depois, ele se tornou diretor da [petrolífera russa] Rosneft. Eu pedi a ele para desistir da ideia, isso foi público.

Outro ponto é que até 30 anos atrás metade de nosso país pertencia ao Império Soviético. Os campos de concentração em 1945 foram liberados pelo Exército Vermelho. Mas esses fatos não mudam minha opinião sobre Putin. Não há uma única justificativa para essa guerra. É preciso apoiar a Ucrânia, aumentar o gasto com defesa, como Scholz fez, e fortalecer a estratégia da Otan.

P. - O sr. acha que tudo o que poderia ser feito está sendo feito para ajudar a Ucrânia ou há algo a mais?

MS - Tudo está sendo feito. Também divido o ponto de vista de quem diz que, se realmente queremos ajudar os ucranianos de forma eficiente, não vamos publicar a estratégia na Folha de S.Paulo, no [alemão] Der Spiegel ou no [francês] Le Monde. Há coisas acontecendo. Os russos não estão publicando a sua estratégia. Por que faríamos o mesmo? Seria inocente.

P. - Estamos a dias do primeiro turno da eleição francesa. Uma vitória de Marine Le Pen representaria uma ameaça existencial para a União Europeia?

MS - Sim. Eu a conheço bem. Foi líder de grupo no Parlamento Europeu e eu tinha de coordenar esse grupo a cada quarta-feira, tempos terríveis para mim. É uma ameaça, e a questão em aberto é a margem de manobra. Se ela tentasse levar a França a sair da União Europeia, seria uma forma de suicídio. Destruiria a UE e também destruiria a França.

P. - A extrema direita está mais forte agora ou no tempo que o sr. esteve no Parlamento Europeu?

MS - São mais fortes hoje. Olhem o seu presidente [Bolsonaro], que foi eleito com os mesmos instrumentos que [Donald] Trump [nos EUA], [Viktor] Orbán [na Hungria] ou [Recep] Erdogan [na Turquia]. Todos têm a mesma estratégia: pôr em questão a legitimidade dos seus opositores com instrumentos da internet e tentar deslegitimar instituições e sobretudo a justiça independente. E está funcionando.

Vamos ser honestos, os movimentos de esquerda até hoje não conseguiram desenvolver uma resposta coerente e global para isso. Mas há uma esperança. Todos esses partidos são muito nacionalistas, e mais cedo ou mais tarde seus interesses se tornam incompatíveis com os dos aliados regionais. A Hungria, por exemplo, foi muito próxima da Polônia. Agora, a Polônia convida os refugiados da Ucrânia e a Hungria negocia com Putin. A amizade acabou. Os interesses internacionalistas da esquerda são maiores.

P. - A esquerda brasileira deve se posicionar mais claramente sobre a guerra na Ucrânia?

MS - Compreendo que seja mais difícil para um país do Brics se afastar da Rússia do que outros países. Mas notei que até o presidente Bolsonaro votou a favor de resolução da ONU [na Assembleia-Geral] contra a Rússia, então acredito que o movimento de esquerda no Brasil vai certamente, completamente, condenar qualquer ação militar contra um país soberano.

P. - Alemães são conhecidos por construir coalizões políticas, como a atual. O que vocês podem ensinar aos outros nesse momento de polarização extremada?

MS - O sistema parlamentar brasileiro é muito particular. O nosso tem premiês fortes, mas muito vinculados a uma maioria parlamentar. É a primeira vez que liberais, verdes e vermelhos se juntam. Questões econômicas e ambientais são difíceis, mas um elemento muito importante. O sinal de que um partido de direita está se juntando à coalizão é um sinal de que os alemães querem ver partidos respeitando a Constituição. A mensagem é: na Alemanha o governo mostrou respeito pelas instituições nacionais e internacionais.

Raio-x

Martin Schulz, 66 Nascido em Eschweiler, cursou até o ensino médio e na juventude foi vendedor de livros e trabalhou numa editora. Na carreira política, foi eurodeputado (1994-2017), líder do grupo de centro-esquerda no Parlamento Europeu (2004-12), presidente do Parlamento Europeu (2012-17) e líder do partido SPD (2017-18). É presidente da Fundação Friedrich Ebert desde 2020.

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