domingo, 9 de fevereiro de 2020

Sem promessa de Witzel, Rio tem mais tiroteios em janeiro de 2020

Em um mês, quatro crianças, de 5 a 11 anos, foram baleadas. Uma delas, Anna Carolina Neves, 8, foi atingida por uma bala perdida na cabeça no sofá de casa e morreu

@Reprodução / Instagram
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem que o governador Wilson Witzel (PSC) tire do papel o plano para reduzir riscos aos moradores das favela durante operações policiais, o Rio já é palco de mais confrontos no início deste ano. Janeiro quebrou uma sequência, que vinha desde julho de 2019, de diminuição no número de tiroteios no estado.
Em um mês, quatro crianças, de 5 a 11 anos, foram baleadas. Uma delas, Anna Carolina Neves, 8, foi atingida por uma bala perdida na cabeça no sofá de casa e morreu. O ano passado terminou com seis crianças mortas durante incursões da polícia nas comunidades fluminenses.
O aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT) registrou um recrudescimento dos confrontos no estado. Foram 357 tiroteios no primeiro mês do ano de 2020. Em comparação com o último mês de 2019, quando o aplicativo registrou 323 tiroteios, houve alta de 10,52%.
Quem lidera o ranking são os bairros da zona oeste Cidade de Deus e Vila Kennedy, seguidos pelos da zona norte Complexo do Alemão e Manguinhos. Fora da capital, a cidade mais violenta é Belford Roxo, na Baixada Fluminense, seguida por São Gonçalo, na região metropolitana, e pela litorânea Angra dos Reis.
Para tentar responder às críticas sobre a área que é sua bandeira eleitoral, Witzel anunciou em setembro que criaria uma cartilha com instruções a quem vive nas regiões mais violentas sobre como agir quando começarem os tiros. O objetivo é, segundo o governador, reduzir os riscos de morte de inocentes por balas perdidas.
Um exemplo citado foi de um vídeo, gravado por PMs, que circulou nas redes sociais. As imagens mostram dois homens em uma moto enquanto o da garupa carrega um pedestal de microfone. O agente que grava avisa que o equipamento poderia ser facilmente confundido com um fuzil e, portanto, não deveria ser carregado em motos ou bicicletas na favela.
"Nego diz que morre à toa. Olha só o que parece que ele tá na mão. Na Vila Vintém, saindo da favela", disse o policial. Em seguida, ele liga a sirene, manda a dupla encostar e pergunta ao garupa o que ele tem na mão. O homem responde: "É um pedestal de microfone" e pede desculpa.
O lançamento do material estava previsto para o fim de 2019 e, logo após, o governador prometeu intensificar o confronto com criminosos.
Mas, até agora, nada da cartilha, que, em tese, daria início a simulações das situações de risco em favelas. Segundo o governo, o plano segue sendo elaborado, sem previsão de ser divulgado.
Outra promessa que ainda não virou realidade foi a de alocar policiais em escolas que ficam nas comunidades para orientar alunos e professores durante as operações. No Rio, em média, mil alunos deixam de ir à escola todos os dias por conta da violência.
O chamado Plano de Segurança e Defesa Social está sendo elaborado pelas secretarias da Polícia Militar, Polícia Civil, Administração Penitenciária e Defesa Civil. O texto deve ser submetido à Assembleia Legislativa do Rio para aprovação e, só então, a cartilha seria divulgada.
Moradores, no entanto, criticam a criação do protocolo. "É problemático porque o Estado reconhece que é um Estado de guerra e tem que preparar as pessoas para a guerra. O papel do governador deveria ser de garantir que os confrontos não acontecessem", afirma a assistente social Lidiane Malanquini, coordenadora na Redes da Maré, ONG do maior conjunto de favelas do Rio.
Adolescentes da Maré que fazem parte do projeto Uerê rebateram o governador e elaboraram uma espécie de cartilha para a PM em dias de operação.
Entre 17 itens estão respeitar o ir e vir da população, não permitir que casas sejam invadidas sem mandado, evitar operações no horário de entrada e saída das escolas, não xingar nem bater nos moradores e não atirar aleatoriamente de helicópteros.
O Rio de Janeiro registrou no ano passado a menor taxa de homicídios dolosos desde 1991: 23,2 por 100 mil habitantes. Ao mesmo tempo, no entanto, cresceu a letalidade policial. Foram 1.810 mortes provocadas pela polícia, o maior número da série histórica para esse registro, iniciada em 1998.Os dois movimentos fizeram com que as mortes provocadas pela polícia do Rio representassem 30,3% de todas as mortes violentas no estado. É a maior proporção já registrada na história.
VIA...NOTÍCIAS AO MINUTO

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