sexta-feira, 4 de junho de 2021

TV estatal mostra confissão de blogueiro na Belarus; família diz que houve tortura

 

O jornalista foi detido em 23 de maio, quando o avião em que viajava para a Lituânia foi interceptado e desviado para Minsk

© Getty Images


BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - O blogueiro belarusso Roman Protassevich, 26, foi mostrado pela emissora estatal ONT numa entrevista que, segundo sua família, foi feita sob coação. Líderes europeus, como a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, condenaram a gravação, feita na prisão. O jornalista foi detido em 23 de maio, quando o avião em que viajava para a Lituânia foi interceptado e desviado para Minsk.


As imagens deixam ver marcas roxas nos pulsos do blogueiro e ele chegou a chorar no final da entrevista, que durou uma hora e meia e foi ao ar na quinta (3). Crítico do ditador Aleksandr Lukachenko desde os 16 anos de idade, Protassevich o elogiou na TV: "Percebi que muitas coisas pelas quais Aleksandr Grigorievich [Lukachenko] é criticado são apenas tentativas de pressioná-lo e que em muitos momentos ele agiu como... um homem com bolas de aço", disse.

O jornalista também "confessa" ter "organizado protestos contra o regime" -atividade considerada crime na Belarus. Ele diz ter decidido falar voluntariamente "para corrigir seus erros" e afirma que nenhuma maquiagem foi aplicada para esconder vestígios de tortura.

No mês passado, ele apareceu em outro vídeo divulgado pela ditadura, também se declarando culpado e desmentindo rumores de que estaria hospitalizado. Segundo seus pais e membros da oposição, o rosto de Protassevich naquele primeiro vídeo tinha sinais de espancamento cobertos por pó.

O blogueiro é ex-fundador do canal jornalístico Nexta, que foi crucial para a organização de protestos contra a reeleição -considerada fraudada- do ditador Aleksandr Lukachenko. O regime tentou desmobilizá-los bloqueando sites independentes e derrubando a internet no país, mas canais por aplicativo mantiveram os manifestantes informados.

Com a repressão crescente de Lukachenko contra jornalistas, ativistas e opositores em geral, Protassevich se exilou na Polônia no final do ano passado e, de lá, foi para a Lituânia. Lukachenko usou um caça militar para interceptar o voo em que ele seguia de Atenas para Vilnius, e desviou o avião para a Belarus, onde foi preso o blogueiro e sua namorada, a russa Sofia Sapega, 23.

As declarações do blogueiro sob custódia da ditadura contrastavam radicalmente com manifestações dadas por ele quando estava em liberdade. Protassevich disse na TV que membros da oposição belarussa eram "vermes que vivem estilos de vida luxuosos na Lituânia e na Polônia e estão na folha de pagamento desses países" - mesmo argumento usado por Lukachenko em seus discursos.

A suposta confissão levada ao ar pela TV estatal belarussa foi classificada de "completamente indigna e implausível" pelo departamento de comunicação do governo alemão, e o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido pediu punição a "todos os envolvidos na filmagem, coerção e direção da entrevista". Analistas europeus compararam a transmissão aos julgamentos públicos espetaculares do soviético Josef Stálin nos anos 1930.

Dmitri Protassevich, pai do blogueiro, afirmou à emissora independente russa TV Rain que a entrevista do filho era pura propaganda estatal. "Estou certo de que essas são as consequências de sua permanência nas masmorras do centro de detenção, de tortura. A princípio tentaram estrangulá-lo, espancá-lo, agora ficam visíveis os traços das algemas. É assustador até imaginar", disse. Segundo ele, a ditadura não permitiu que nem seu advogado nem médicos falassem com Protassevich, o que impede avaliar "sua real condição".

"Conhecendo nosso filho como conhecemos, é claro que Roman não está dizendo o que pensa. Fica evidente uma luta interna entre o que ele está sendo obrigado a dizer e o que não quer dizer", afirmou o pai do blogueiro. Para Dmitri, a ditadura pode ter chantageado o jornalista com ameaças a sua namorada, que está presa na KGB (agência de inteligência da Belarus).

Há mais de 450 presos políticos na Belarus, de acordo com consórcio de direitos humanos, e centenas de denúncias documentadas de torturas. Nesta semana, um deles cortou a própria garganta com uma caneta durante julgamento, após denunciar coerção policial para que confessasse.

Enquanto Lukachenko mantém a escalada de repressão sobre seus opositores, o Conselho Europeu oficializou nesta sexta sua "condenação veemente" à interceptação do voo em 23 de maio e à detenção do jornalista e sua namorada, para os quais "exige libertação imediata".

A partir da 0h de sábado, fica formalizada a orientação -já seguida por alguns países- de não sobrevoar a Belarus. Companhias belarussas também ficam proibidas de passar pelo espaço aéreo da UE ou pousar em seus aeroportos. O bloco europeu ainda definirá uma quarta leva de sanções contra empresas e pessoas ligadas à ditadura.

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