sábado, 1 de janeiro de 2022

Transição energética gera euforia em MG e apreensão no RS

A reportagem visitou as duas cidades entre o fim de novembro e o início de dezembro para entender os efeitos locais da transição energética

© Pixabay


NICOLA PAMPLONA E DANILO VERPA
JANAÚBA, MG, E CANDIOTA, RS (FOLHAPRESS) - As diferenças entre as cidades de Janaúba, no norte de Minas Gerais, e Candiota, no sul do Rio Grande do Sul, vão hoje bem além do clima e dos sotaques de cada região brasileira. Separadas por cerca de 2.700 quilômetros, as duas vivem expectativas bem distintas sobre o futuro.

A primeira é um dos principais focos de investimento em energia solar no país e convive hoje com milhares de trabalhadores egressos de outras partes do país, que lotam hotéis e restaurantes, movimentando a economia local e gerando emprego e renda.

Conhecida como a capital nacional do carvão, a segunda vive um clima de incerteza diante das pressões cada vez maiores pela redução das emissões de gases do efeito estufa pelo setor de energia.

A reportagem visitou as duas cidades entre o fim de novembro e o início de dezembro para entender os efeitos locais da transição energética, acelerada nos últimos anos com o barateamento das fontes renováveis e os alertas sobre os riscos das mudanças climáticas.

Com as obras, primeiro de subestações de transmissão de energia e depois de usinas, Janaúba viu seu PIB ultrapassar a casa de R$ 1 bilhão em 2016. Em 2019, a riqueza gerada no município chegou a R$ 1,3 bilhão, mais de 2,5 vezes o registrado em 2010.

Candiota, por outro lado, sofreu um baque em meados da década passada, com o fechamento de duas máquinas geradoras da térmica a carvão Candiota 2 e, apesar de recuperação recente com a inauguração de uma nova usina, atingiu em 2019 um PIB semelhante ao que tinha em 2010.

Impulsionada pela queda no preço dos painéis e por subsídios rateados pelos consumidores de eletricidade, a potência de usinas solares no país decuplicou em cinco anos. Também subsidiado, o carvão perdeu capacidade com o fechamento de três unidades geradoras.

Para especialistas, a tendência é que a diferença entre os dois mercados se acentue nos próximos anos. Projeções da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) apontam que o Brasil ganhará novos 5,4 GW (gigawatts) em energia solar até 2030, enquanto a capacidade de geração a carvão será reduzida.

A indústria de carvão reclama que o fim dos subsídios à compra do combustível, que custaram R$ 750 milhões em 2021, fechará unidades existentes ao fim dos contratos de venda de energia e inviabiliza três novos projetos com investimentos previstos em cerca de R$ 20 bilhões.

O apoio é rateado por todos os consumidores de energia no país por meio de um encargo setorial que será extinto em 2027. Para 2022, a cifra deve superar R$ 900 milhões.

O setor defende uma "transição energética justa", que manteria as usinas atuais em funcionamento até a viabilização de novas tecnologias para a redução das emissões e para outros usos do carvão, como a produção de combustíveis e fertilizantes.

Alega ainda que a geração a carvão é barata e tem peso ainda pequeno na matriz energética e no volume de emissões do país. E defende que novas tecnologias de redução da poluição e captura de carbono começam a se mostrar viáveis no mundo.

Mas admite que será cada vez mais difícil financiar novos projetos. "A discussão sobre financiamento é problema crucial para indústria do carvão", diz o presidente da ABCM (Associação Brasileira de Carvão Mineral), Fernando Luiz Zancan.

Alegando que é importante preservar a economia de cidades dependentes do carvão na região Sul, o governo federal lançou em agosto um programa para desenvolver usos sustentáveis para o combustível, mas nem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) quer financiar mais o setor.

A saída do banco desse mercado, anunciada em julho, segue exemplo de Europa e China, que restringiram o apoio ao combustível. "Os fundos de investimento estão fechando seus portfólios a carvão", acrescenta o coordenador do Portfólio de Energia do ICS (Instituto Clima e Sociedade), Roberto Kishinami

O ex-presidente da EPE Maurício Tolmasquim diz não ver sentido em manter subsídios a energias fósseis, principalmente depois que o relatório da COP26 pediu o fim dos programas de apoio a fontes mais poluentes e deu início à implantação do mercado de carbono.

"Em países que têm quantidade de carvão muito grande, com usinas relativamente novas, o custo de desligar seria maior", diz. "Mas, no Brasil, estamos falando em térmicas antigas, ineficientes e com a vida útil acabando. Não tem sentido ficar prorrogando isso."

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