domingo, 31 de julho de 2022

Morte de nigeriano agredido na rua na Itália causa revolta e chega a debate eleitoral

O caso ocorreu na cidade de Civitanova Marche, 245 km a nordeste de Roma.

© Getty Images

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - O assassinato de um vendedor ambulante nigeriano na última sexta-feira (29) na Itália gerou indignação e, em meio às discussões para a eleição no país, intensificou debates sobre o racismo e políticas de imigração.

O caso ocorreu na cidade de Civitanova Marche, 245 km a nordeste de Roma, e chamou a atenção depois de vídeos da cena serem publicados nas redes sociais. Em via pública e à luz do dia, sob o olhar de outros passantes, Filippo Ferlazzo, 32, espancou Alika Ogorchukwu, 39, até a morte.

De acordo com a versão do italiano, o vendedor ambulante teria flertado com sua namorada -versão contestada pelas investigações iniciais da polícia- e insistido para que ela desse alguma esmola. Duas testemunhas disseram que Ferlazzo correu atrás de Ogorchukwu, arrancou sua muleta e o agrediu na cabeça com ela.


Caído devido ao golpe, o nigeriano continuou a ser agredido; os vídeos postados na internet mostram esse momento, com o italiano aparentemente estrangulando o vendedor ambulante, que, por baixo, tenta em vão se soltar. As agressões, segundo a imprensa local, duraram de três a quatro minutos.


O italiano depois teria tomado o celular da vítima e saído andando. Chamadas ao local, equipes de resgate não conseguiram socorrer o nigeriano. Relatório inicial da polícia apontou o espancamento como causa da morte, mas o corpo vai passar por autópsia para que se verifique se Ogorchukwu morreu devido a um quadro de asfixia.


Ferlazzo foi preso logo após as agressões e responderá por roubo e homicídio doloso. De acordo com a imprensa italiana, porém, ele não será autuado por racismo. "A situação é bastante clara; tudo parece ter surgido de uma disputa por motivos fúteis, não por racismo", disse Matteo Luconi, um dos investigadores.


Ogorchukwu morava a 50 quilômetros de Civitanova Marche, mas ia todos os dias à cidade para vender pequenos itens, como isqueiros e lenços. Paralelamente, pedia esmola a pedestres. Ele tinha dois filhos, de 8 e 10 anos, e vivia com a esposa. Há um ano, segundo o jornal Corriere della Sera, sofreu um acidente e, desde então, precisava do apoio da muleta. "Só quero justiça para meu marido", afirmou Charity Oriachi.


Neste sábado (30), Ferlazzo pediu desculpas à família da vítima por meio de seus advogados. Ele não tem antecedentes criminais, e a defesa pretende pedir um laudo psiquiátrico.


Em Civitanova Marche, centenas de pessoas foram às ruas protestar contra o crime, incluindo italianos e membros da comunidade africana da região. Muitos questionaram a omissão dos passantes que testemunharam as agressões.


A deputada Laura Boldrini, do Partido Democrático, de centro-esquerda, engrossou essas críticas. "Um homem foi morto na rua com violência brutal enquanto testemunhas filmavam a cena. Don Albanesi está certo: o racismo, a indiferença e a raiva encontram uma saída nos mais fracos", disse, fazendo referência a declarações de um padre italiano sobre o caso.


No cenário eleitoral -o país se prepara para um pleito legislativo antecipado, após a renúncia do premiê Mario Draghi-, o caso repercutiu devido à plataforma anti-imigração do partido que lidera as pesquisas de intenção de voto, o Irmãos da Itália.


Giorgia Meloni, líder da agremiação, e o ultradireitista Matteo Salvini, da Liga, criticaram o que chamaram de tentativa de politizar o caso. "Espero que o assassino pague caro por esse homicídio hediondo", escreveu Meloni, ao pedir orações pela vítima. Em um tuíte, Salvini associou o assassinato de Ogorchukwu à insegurança. "Cidade em desordem, violência de dia e de noite, não aguentamos mais: a segurança não tem cor, a segurança deve voltar a ser um direito."
A Liga e o Irmãos da Itália ensaiam uma coalizão com o Força, Itália, de Silvio Berlusconi, para o pleito de setembro.


Se guarda semelhanças com o caso de Geroge Floyd nos EUA, o crime na Itália remete ainda a um ataque a tiros de um extremista contra seis imigrantes, em fevereiro de 2018. Na época, o país também se preparava para eleições, com políticas anti-imigratórias defendidas por Salvini.

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